





 O segredo de Maura

   Hannah Howell

   A stockingful of joy
   Famlia Kenney 2


    Montana, EUA, Sculo XIX
    O Amor Como Recompensa!
    Para ajudar sua prima Deidre a cumprir a promessa feita ao pai, Maura Kenney embarca com ela numa longa viagem rumo a Montana. Porm a ameaa de saqueadores
resolutos em se apoderar dos documentos que Maura carrega, a abriga a se separar da prima e prosseguir viagem sozinha. Enfrenta um perigo aps o outro, at ser amparada 
por Mitchell Callahan, um homem cativante e sedutor. Incerta de poder confiar em Mitchell, Maura sabe que manter em segredo os documentos ser difcil, mas esconder 
atrao que ele lhe desperta ser quase impossvel...
    
    

    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    Capitulo I
    
    Maura Kenney no podia crer no que lhe acontecia. Ainda trajando luto pela morte recente do tio, Patrick Kenney, ela havia ido  igreja rezar por sua alma, e 
na volta acabara acidentalmente enveredando pela parte ruim da cidade. Por que no colocavam placas avisando? Pelo visto, devia ter tambm pedido a Deus que a protegesse 
do ataque de bandidos.
    - Miserveis! Imundos! Soltem-me ou pagaro caro por isso!
    Maura lutava para se desvencilhar dos dois pistoleiros bbados que a conduziam para uma viela escura e, apesar de lutar com fria, estava apavorada.
    - Faa-a calar a boca, Hank - reclamou um dos homens, to embriagado que mal se entendia o que dizia. - Algum poder ouvi-la.
    - Nesta parte da cidade, Lyle? - admirou-se o outro agressor. - Se algum ouvir, vai pensar que  uma prostituta do bordel arranjando encrenca.
    - Solte-me ou vai se arrepender! - Maura gritou mais uma vez, enterrando as unhas no brao do pistoleiro que a puxava.
    - Estou morrendo de medo... - zombou Hank.
    - No perde por esperar, seu atrevido!
    Quando atingiram o meio da ruela deserta, os homens a encostaram contra uma parede. Um deles se postou a sua frente com um sorriso maligno e sedento nos lbios, 
e falou:
    - Vamos nos divertir muito, querida...
    Lutando, Maura conseguiu desvencilhar um dos braos e desferiu um soco no agressor. Ela pretendia acertar-lhe a face, mas, desajeitada, acabou atingindo seu 
pomo-de-ado; num misto de surpresa e horror, notou que o pistoleiro se engasgava, sufocado, e cambaleava para trs. De fato, era melhor acertar agressores nessa 
regio do pescoo do que naquela parte do corpo masculino que sua prima Deidre recomendara!
    Maura se considerava uma senhorita doce e educada e, no entanto, dirigia agora contra um homem toda a violncia de que era capaz! Contudo, que mais podia fazer? 
No era possvel se comportar como uma dama se no a tratavam como tal.
    - Voc machucou Lyle! - rugiu Hank, sacudindo-a como se fosse um saco de batatas.
    - Pena que no o matei !
    Hank pressionou seus braos contra a parede, imobilizando-os. Maura tentou chut-lo e mord-lo, mas no havia muito que pudesse fazer; pensou na me e nas maneiras 
finas que aprendera quando pequena, porm agora o canalha comeava a arrebentar os botes de seu vestido! Definitivamente, no era o momento de mostrar boa educao, 
debatendo-se e gritando o mais que podia, talvez tivesse alguma chance de escapar. Sua situao era desesperadora, e ela decidiu usar os xingamentos mais ofensivos 
que lhe ocorressem:
    - Seu verme! Porco imundo!
    Aproximando-se da entrada do bar, Mitchell Callaham no se admirou ao ouvir uma mulher proferindo tais improprios naquela parte da cidade. Na verdade, as mulheres 
que freqentavam o local podiam dizer coisas bem piores.
    - Filho de uma rameira!
    "Esse xingamento, sim, condiz mais com o ambiente", refletiu Mitchell. Ele decidira vir ao bordel porque se sentia irriquieto. E pensou que a companhia de uma 
mulher de vida fcil o ajudaria a se acalmar um pouco, embora no apreciasse recorrer a tal expediente. Prosseguiu em direo ao bordel sem se incomodar com a discusso 
que ocorria na viela ao lado, mas sem deixar de notar que a briga parecia agravar-se cada vez mais.
    - Com os diabos, Lyle, me ajude a controlar esta louca!
    - Vou arrancar seus pulmes pelos olhos! - ameaou Maura, esforando-se ao mximo para inventar insultos.
    Mitchell foi assaltado pela suspeita de que aquela mulher poderia ser vtima de violncia. Ela agia de modo muito estranho. Se averiguasse melhor o que se passava, 
quem sabe a gratido da senhorita lhe garantisse alguns favores agradveis mais tarde?
    A escurido na pequena ruela impediu-o de perceber com clareza o que acontecia, mas ele pde ver, com profunda indignao, que um homem enorme imobilizava uma 
mulher pequena e de aspecto frgil contra a parede. E quando notou que outro indivduo se aproximava para ajudar, a revolta fez seu sangue ferver. Ela parecia trajar 
um vestido escuro e decente que a cobria totalmente, e no havia dvidas de que fazia o possvel para se libertar. Num mpeto, Mitchell resolveu que havia razo 
de sobra para ajud-la e apressou o passo.
    Com calma e deliberao, ele se aproximou por trs do pistoleiro que parecia estar com problemas para respirar e deu-lhe um tapinha no ombro. Assim que o homem 
se virou, Mitchell desferiu um tremendo soco na face, lanando-o ao cho.
    - Lyle! - insistiu o comparsa, sem perceber o que se passava s suas costas. - Com os diabos, j pedi para me ajudar!
    - Lyle est ocupado. - Quem respondeu foi Mitchell, em tom neutro, mas firme.
    Hank virou-se, e se surpreendeu com o que viu. Maura tambm fitou o desconhecido recm-chegado e, apesar de no poder ver bem seu rosto na escurido, notou que 
se tratava de um homem alto e bem mais forte que seus atacantes. Nesse momento, Hank percebeu o companheiro cado no cho, e acabou soltando Maura.
    - V procurar outra pequena - disse Hank, fitando Mitchell -, pois esta j tem dono.
    - A senhorita acompanha estes cavalheiros por vontade prpria? - perguntou o desconhecido.
    - Cavalheiros? Ora, estes homens so uns porcos sujos! Deviam ser jogados de volta  poa de lama de onde fugiram!
    - Ento no est aqui por livre e espontnea vontade - comentou Mitchell com calma, antes de dirigir-se ao vaqueiro que o encarava. - A senhorita quer que ele 
pare de incomod-la.
    - Ela quer cobrar um preo mais alto do que vale. - Hank sorriu de modo malicioso. - No  mesmo, querida?
    - Por que no volta para o pntano de onde saiu? - insultou Maura mais uma vez.
    Mitchell no pde deixar de se admirar com a rica imaginao que a senhorita tinha para inventar insultos, mas agora era hora de se preparar para o golpe que 
o oponente sem dvida pretendia lhe dar. Quando o ataque afinal aconteceu, foi desajeitado e sem percia, e Mitchell precisou apenas desferir um soco na altura do 
estmago e outro no queixo para derrub-lo no cho, ao lado do companheiro, que ainda no recobrara a conscincia.
    Maura fitou os dois sujeitos que pretendiam violent-la e que agora jaziam estatelados no cho. Seu salvador os vencera com enorme facilidade, e ela estava grata 
pela ajuda. Mas considerou imediatamente que nada garantia que o perigo houvesse passado. Afinal, embora o recm-chegado a tivesse ajudado, talvez se revelasse ainda 
mais perigoso que seus dois agressores.
    - Agradeo de corao por ter vindo em meu auxlio! - Com os botes que haviam sobrado no vestido, Maura tentava fech-lo. - Estava perdendo a batalha contra 
estes rufies.
    - Creio que no trabalha no bar ao lado.
    - Claro que no!
    - Ento devia pensar melhor antes de transitar por esta parte da cidade.
    - Como podia adivinhar, se no moro aqui e s estou de passagem? - Maura inclinou-se para agarrar o xale que cara a seus ps. - Voltava da igreja e jamais imaginei 
que...
    - Igreja? - Mitchell sorriu. - Surpreendente...
    - Isso mesmo! De qualquer forma, os lugares que visito no so de seu interesse. - Maura se irritou com o tom irnico de Mitchell. - Estes dois homens me agarraram 
e me arrastaram para este beco escuro com intenes obviamente escusas.
    - Obviamente. Bem, para onde estava indo?  melhor que eu a acompanhe, para evitar outros incidentes.
    - No, isso no seria apropriado. Reconheo que me salvou, senhor, mas... eu no o conheo.
    - Meu nome  Mitchell Callaham. - Ele tocou a aba do chapu elegante,  guisa de apresentao.
    Maura prendeu a respirao, resistindo ao impulso de sair correndo. No podia ser mera coincidncia. Seria possvel que tivesse sido salva por um Callaham?
    Ela tentou raciocinar. Acreditava estar sendo seguida, mas at agora conseguira se manter a salvo, pois achava-se sempre em locais pblicos e rodeada de pessoas. 
Quando, pela primeira vez, caminhou por lugares desertos, um heri no tardou a aparecer para livr-la de um ataque. Seria uma artimanha? Se fosse, era um plano 
to bem elaborado para ganhar sua confiana que ele no necessitaria usar o nome dos Callaham para ludibri-la.
    - Mitchell Callaham? De onde?
    - Paradise, Montana. E a senhorita?
    - Sou Maura Kenney. - Ela estendeu a mo num cumprimento. - Deve ser por estar to escuro aqui que o senhor no me reconheceu - mentiu.
    - Conheo um certo Patrick Kenney, um bom homem.
    - Muito bom, sem dvida.  pena que o senhor no se recorde de que uma vez danamos juntos numa festa no Missouri... - Maura continuou mentindo para coloc-lo 
 prova.
    - S estive em Saint Louis uma vez a negcios, e no fui a nenhuma festa. - Mitchell tomou-a pelo brao e a conduziu para fora da viela. - Vamos at um local 
mais iluminado, para que a senhorita possa me ver melhor.
    Maura ia protestar, mas tudo que queria era sair daquele beco escuro; seria estpido recusar, embora no gostasse do modo como ele a segurava. Quando deram a 
volta pela esquina, Maura se virou para fit-lo e quase engasgou. J sabia que o estranho era um homem forte, de voz grave, e at mesmo sexy, mas no havia notado 
a beleza masculina de seu rosto, capaz de fazer qualquer mulher se perder em fantasias.
    Mitchell ainda a conduziu mais adiante e, quando se virou para argumentar que ela mentia ao dizer que se conheciam e haviam danado juntos, foi ele quem teve 
um choque: a tal senhorita era uma mulher linda! E certamente no se tratava de uma das raparigas do bordel. Delgada e de cabelos ruivos, tinha o porte de uma dama, 
e seus olhos azuis eram encimados por clios longos e espessos que ressaltavam ainda mais o brilho vivaz do olhar. Os lbios exibiam um contorno perfeito, e eram 
carnudos, tentadores. Ela o olhava de maneira inquisitiva agora. Mitchell percebeu que a fitara calado por tempo demais.
    - Que histria  essa de dizer que j me conhecia?
    - Pelo menos valeu a pena tentar - comentou Maura, sem se importar em esconder que tivera a inteno de iludi-lo.
    - Sou um dos Callaham que contrataram Patrick Kenney. Ele est aqui?
    - No. Meu tio Patrick Kenney morreu assassinado por pistoleiros - informou Maura com tristeza.
    - Por Deus, no me diga uma coisa dessas! E Bill Johnson?
    - Assassinado uma semana antes de tio Patrick.
    Mitchell no conseguia acreditar no que ouvia. Patrick e Bill haviam sido contratados para trazer as escrituras das terras e das minas da famlia Callaham, e 
apesar de saber que os Martin tentariam algo para impedir que os documentos fossem entregues, jamais imaginara que chegassem a assassinar pessoas. A idia de que 
aqueles documentos estivessem agora manchados com sangue o perturbava profundamente.
    - Onde est hospedada, senhorita?
    - No Hotel Depot - respondeu Maura, mas arrependeu-se i rnediatamente por revelar tal informao.
    - Eu tambm. - Mitchell tomou de novo seu brao e conduziu-a em direo ao hotel.
    - No concordei que viesse comigo! - Ela quase precisou correr para acompanhar os passos largos daquele homem.
    - No tenho inteno de permitir que a sobrinha de Patrick Kenney transite sozinha por estas ruas perigosas.
    - Mas no sei quem  o senhor.
    - J disse que sou Mitchell Callaham, um dos irmos proprieIrios das escrituras que seu tio guardava. Sua mentira para me iludir no bastou para convenc-la 
de que digo a verdade?
    - No sei... Talvez o senhor tenha desconfiado que eu o coloquei  prova!
    - Se necessita mais tempo para se convencer de que sou quem digo ser, ento ter oportunidade de faz-lo enquanto jantamos .juntos.
    - Que absurdo. Se j percebeu que no confio no senhor, o que o leva a crer que aceitarei seu convite para jantar?
    - Precisa comer, no? Deve estar com fome. - respondeu Mitchell, entre impaciente e sarcstico. -No tenha receio. Quando acreditar que sou quem afirmo ser, 
ver que posso ajud-la, pois estamos do mesmo lado.
    - Isso ainda necessita de comprovao.
    Na verdade, Maura apreciava a idia de jantar com ele, e isso a perturbava. Sua me j a alertara sobre aquele tipo de homem muitas vezes: alto, forte, atraente, 
decidido e pronto a defend-la dos perigos do mundo. Numa reao automtica, seu corao j comeava a se render a tantos encantos, e isso era um perigo. Se de fato 
ele fosse um Callaham, ela teria de aceitar sua ajuda, e muito provavelmente seguiriam viagem juntos, tomando a atrao que sentia ainda mais perigosa. A viagem 
que empreendia trazendo as cpias dos documentos j era complicada e perigosa demais, e agora as dificuldades aumentavam. Se ele provasse ser membro da famlia que 
contratara seu tio, quanto deveria revelar a respeito do plano que havia traado com Deidre? Seria sensato revelar que as escrituras que portava eram cpias sem 
valor legal?
    Mitchell no largou seu brao, e seguiram calados at chegarem ao hotel. Ao adentrarem o lobby, ele afinal a soltou.
    - Eu a encontrarei no restaurante s oito horas.
    Maura suspirou fundo, considerando que ia aceitar o convite, pois precisava jantar de qualquer maneira. Ademais, necessitava descobrir se aquele homem era um 
aliado ou um inimigo.
    - Prefiro que nos encontremos s sete.
    - O restaurante vai estar cheio de gente a esta hora.
    - Por isso mesmo - disparou Maura, virando-se e dirigindose para a escada que levava a seu quarto.
    Mitchell a observou e sorriu. Aquela era uma mulher de esprito forte! Qualquer outra que tivesse sofrido ataque semelhante ao que ela enfrentara ainda estaria 
em estado de choque; mas a srta. Kenney no exibia nem de longe tal fraqueza. Era visvel que o fogo ardia sob seu exterior delicado, e apesar do medo que certamente 
sentira ao ser agredida pelos vagabundos, s demonstrara fria e raiva.
    Com passos rpidos, ele chegou ao andar superior a tempo de v-la entrar no ltimo quarto do comprido corredor. Surpreso, reconheceu que a delicada Maura Kenney 
o fascinava; mais surpreso ainda, percebeu que j perdera toda a vontade de visitar o bordel.
    
    
    Captulo II
    
    Maura parou diante do espelho e analisou a prpria imagem. Fizera tudo como de costume, mas algo parecia diferente. Seu cabelo se prendia num coque, e s alguns 
cachos caam pelos lados do rosto. A gola alta do vestido negro abotoada at em cima escondia totalmente o pescoo, e nada se notava da pele alva. Mesmo assim, havia 
algo diferente.
    - Ol, Maura. - A voz grave e j familiar soou s suas costas quando ela trancava a porta do quarto.
    - Pensei que amos nos encontrar no restaurante - comentou ela ao virar-se.
    -  para onde eu estava indo.
    Maura meneou a cabea, e no instante seguinte ele j a tomava pelo brao e a conduzia para a escada. Se de fato prosseguissem viagem juntos, no permitiria mais 
que Mitchell a levasse para onde quisesse e no momento em que resolvesse.
    Entretanto, quando sentaram-se  mesa pouco depois, ele no fez meno de escolher o que ela deveria comer, e isso contribuiu para melhorar o humor de Maura. 
Em seguida, e at os pratos serem servidos, o cavalheiro fez perguntas leves a respeito de sua vida em Saint Louis e da viagem desde que partira. A quantidade de 
comida que serviram a seu acompanhante a fez arregalar os olhos, mas um homem to grande provavelmente tinha de comer muito para manter a energia. J traziam a sobremesa 
e o caf quando ele afinal abordou o assunto que esperava.
    - Suponho que ainda duvide que sou quem afirmo ser.
    - No tenho alternativa, senhor.
    - Compreendo que deva ser cautelosa. - Ele passou alguns papis para Maura. - Talvez isto a ajude a decidir.
    Tratava-se de cartas, notas de compras e at mesmo uma mensagem  mo escrita por Bill Johnson, todas destinadas a Mitchell Callaham, e algumas exibindo sua 
assinatura. Eram vrios papis diferentes e sem dvida autnticos.
    - Satisfeita? Agora acredita em mim?
    - Acredito. Um falsificador de documentos jamais perderia tempo falsificando uma nota de compra de botas de couro, por exemplo. Alis, botas bastante caras, 
neste caso.
    - Quando se tem ps to grandes quanto os meus,  necessrio ter certeza que as botas sejam do tamanho correto.
    - Compreendo...
    - Onde esto as escrituras que pertencem  minha famlia?
    - Esto comigo - respondeu Maura, concentrando-se em comer a torta de ma e mantendo o olhar baixo para que ele no percebesse que mentia. Afinal, os documentos 
verdadeiros estavam com Deidre, e ela trazia cpias falsificadas sem valor legal.
    - Com voc?
    - Com quem mais poderiam estar? Meu tio e Bill foram mortos, e a tarefa foi passada para mim e minha prima Deidre. 
    - Ento no viaja s?
    - Deidre tomou uma rota diferente, pois acreditamos que isto confundiria possveis perseguidores.
    - Com os diabos, porque resolveram levar a cabo esta tarefa? O fato de dois homens terem sido assassinados por causa das escrituras no foi suficiente para alert-las 
sobre o risco de tal viagem? Isto no  trabalho para mulheres.
    Aquela demonstrao de tpica arrogncia masculina a irritou.
    - Vocs contrataram meu pai e seu amigo Bill Johnson, mas ambos foram mortos e o trabalho teve de ser levado adiante por mim e minha prima. Tio Patrick disse 
que receberamos uma recompensa quando chegssemos a Paradise, e este foi o legado que nos deixou. Afinal, j consegui chegar at aqui s e salva.
    - Pura sorte - avaliou Mitchell, notando o brilho de irritao nos olhos de Maura; resolveu que tinha de ser mais cuidadoso na maneira como falava. - Est bem, 
conseguiu viajar at agora sem ser capturada, mas eu levarei os documentos daqui para a frente, e voc poder voltar para casa - finalizou, apesar de sentir tristeza 
por interromper aquele encontro que mal se iniciara.
    - No! - disse Maura com firmeza, e j pronta para a discusso que certamente teria de enfrentar.
    - Sim! - retrucou Mitchell com firmeza ainda maior. - Este  um problema meu e de meus irmos, e se algum tiver de ser atacado, que seja um de ns.
    - Pode discutir o quanto quiser, sr. Callaham, mas no vai mudar minha opinio. Eu me comprometi a levar os documentos para Paradise e  o que farei.
    - No quero que nossa vitria sobre os Martin custe o sangue de mulheres inocentes.
    - No tenho inteno alguma de permitir que esta tarefa custe meu sangue.
    - Por que  to teimosa?
    - Deidre e eu estvamos com tio Patrick ao morrer. Ele foi baleado, mas conseguiu fugir e se arrastar at nossa casa. Minha prima e eu fizemos uma promessa em 
seu leito de morte, e nada no mundo me impedir de cumpri-la.
    - Maldio! - Mitchell passou a tomar o caf para tentar se acalmar um pouco.
    "Uma promessa feita num leito de morte!" Seria impossvel convenc-la a desistir da idia. Mitchell a fitou enquanto Maura, em silncio, comia a torta de ma. 
Por um lado, a idia de prosseguirem viagem juntos o agradava, pois restariam uma ou duas semanas se conseguissem seguir por trem at o final, e isso lhe daria tempo 
de conhec-la melhor. J no era possvel negar que aquela mulher o intrigava e o interessava ao mesmo tempo, mas teria de desvendar a extenso e a profundidade 
do que sentia. Seu instinto lhe dizia que aquela era a mulher predestinada para ele, a mulher que desejava encontrar desde que se tornara homem... Mas precisava 
de tempo para se certificar disso.
    - H algo mais que deve considerar, sr. Callaham. Seus inimigos j sabem que trago as escrituras, e mesmo me enviando de volta para Saint Louis, duvido que no 
tentem me capturar para ter certeza que no possuo os documentos. E garanto que no me trataro de maneira cavalheiresca.
    - Tem razo. A senhorita se transformou num alvo desde o momento em que aceitou levar este trabalho adiante. Nossas propriedades so o resultado de anos de trabalho 
rduo de meu pai, e no pretendo deixar que os Martin se apoderem delas. Mas tambm no desejo que outras pessoas morram por causa disso.
    - Estas escrituras j esto manchadas com o sangue de dois homens bons - prosseguiu Maura com um triste suspiro -, mas no foi voc nem seus irmos que as mancharam 
assim. Foram os Martin! Teria imensa satisfao em fazer minha parte para que sejam derrotados e paguem por seus crimes.
    - Tambm desejo me vingar, ao menos para aliviar um pouco da culpa que sinto.
    - No deve se sentir culpado, senhor. Jamais poderia imaginar que a disputa pudesse ir to longe, e o que aconteceu no pode ser mudado.
    - Compreendo que fomos vtimas de uma situao que no prevamos, e agora temos de fazer o melhor possvel daqui por diante. Levaremos uma ou duas semanas at 
Paradise se prosseguirmos de trem, dependendo do tempo e do quanto tivermos de esperar por trens que nos levem na direo certa.
    - Sim. Eu mesma j espero h trs dias nesta cidade o prximo trem em direo a Montana. Mas por que disse se prosseguirmos de trem? Por que o faramos de outra 
forma?
    -  fcil seguir trens, e suponho que j saibam que a senhorita se encontra aqui. No teve problemas at agora? - perguntou Mitchell, notando que Maura comeava 
a pensar se devia dizer a verdade ou no, escolhendo enfim ser sincera. Pelo visto, era fcil adivinhar seus pensamentos, mas certamente no lhe contaria isto.
    - Houve incidentes - confessou Maura relutante -, mas viajar por trem traz vantagens, pois estou rodeada de gente que se dispe a ajudar uma mulher usando luto. 
Ademais, pistoleiros no atacam quando h testemunhas por perto.
    - Tem razo, e concordo que  recomendvel seguirmos por trem. Contudo, quanto mais nos aproximamos de Paradise, mais eles podem se tornar desesperados e ousados 
nos ataques, deixando de se importar com testemunhas.
    - Por acaso sabe quanto os Martin ofereceram a estes pistoleiros de aluguel para que obtenham as escrituras?
    - No sei, mas os Martin so ricos e creio que a recompensa oferecida  suficiente para fazer alguns homens correrem o risco de serem enforcados.
    Maura suspirou entristecida, pensando que a morte de Bill e do tio provava que os pistoleiros contratados pelos Martin matavam com facilidade e sem pensar duas 
vezes, pois sem dvida uma gorda recompensa os esperava quando trouxessem as escrituras que atestavam as posses da famlia Callaham. Era difcil compreender que 
certas pessoas fossem capazes de atos to vis para obter propriedades que no lhes pertenciam, e o fato de ela ser mulher no garantia que fosse ser tratada com 
mais considerao. Na verdade, os acontecimentos daquela noite demonstravam que corria um perigo a mais, que os homens no correriam.
    Entretanto, nada disso a faria desistir de ir adiante e cumprir o que prometera ao tio; alm do mais, Deidre seguia viagem sozinha pela rota indireta. Patrick 
e Deidre a haviam recebido como filha e irm quando sua me morrera, e ela lhes seria eternamente grata por isso. Durante cinco anos viver na casa deles, e eles 
jamais se conportaram como se fizessem caridade; pelo contrrio, sempre demonstraram que aquela tambm era sua casa e a tornaram parte da pequena famlia. Patrick 
havia se transformado no pai que ela jamais tivera, pois seu pai biolgico, sempre ausente, terminou sendo morto pelo marido de uma das inmeras mulheres casadas 
que ele costumava seduzir. Agora Maura tinha o momento e a oportunidade de pagar o bem que o tio e Deidre haviam feito por ela.
    - Est to sria e pensativa, querida. - Mitchell tomou sua mo sobre a mesa.
    - No lhe dei liberdade para se dirigir a mim desta forma - reclamou Maura, afastando a mo.
    - No pedi sua permisso - Mitchell avisou, com um sorriso maroto que o tornava ainda mais atraente.
    Maura suspirou e desviou o olhar. Sua me jamais explicara como lidar com um homem que foge s regras. Incomodada, teve de admitir que o considerava charmoso. 
Pelo visto, era hora de exercitar o autocontrole, sobretudo porque estariam muito prximos um do outro nos dias que se seguiriam.
    - Pensava em meu tio - disse Maura. - Ele no era covarde, mas no teria aceitado um trabalho que pudesse custar sua vida por causa de problemas alheios.
    - Mesmo assim, pediu a voc e  filha que terminassem a tarefa.
    - Tio Patrick estava  beira da morte e no tinha nada para nos deixar. Como disse, esta recompensa foi o legado que nos deixou. Creio tambm que desejava que 
o trabalho fosse terminado, caso contrrio teria morrido inutilmente; e no ia apreciar morrer sabendo que seus assassinos haviam vencido.
    - Seu esprito no descansaria.
    - Devo isto a meu tio Patrick, pois ele me acolheu depois que minha me faleceu e me tratou como filha. Deidre tambm me recebeu como irm, e nenhum dos dois 
jamais pediu nada em troca. Realizarei esta tarefa, e assim atenderei ao desejo destas pessoas que sempre me amaram.
    Mitchell j notara que Maura era uma mulher de personalidade forte, mas o que acabava de dizer mostrava que tinha grande determinao; e com certeza era isso 
que lhe dava o porte altivo e elegante e a fazia caminhar to ereta. Maura era uma mulher linda e doce, mas possua enorme fora de vontade: nem mesmo ele, acostumado 
a discutir com os irmos teimosos, sentia-se inclinado a discutir com ela.
    - Melhor irmos deitar, senhorita - sugeriu Mitchell -, pois o trem parte cedo amanh. Permite que eu a acompanhe a seu quarto?
    -Como j descobriu em qual quarto eslou, no h muita razo para dizer no.
    Mitchell levantou, deu a volta na mesa e puxou a cadeira para Maura tambm levantar.
    - O vestido preto significa luto por seu tio? - perguntou quando atravessavam o lobby do hotel, sem deixar de pensar que o vestido, alm de escuro, era simples 
e discreto.
    - Sim, embora meu tio no apreciasse o uso do luto. Para mim, alm do luto por meu amado tio, serve para manter companhias indesejveis a distncia, uma artimanha 
que ele certamente aprovaria.
    - Bem, mas no foi suficiente para afastar aqueles pistoleiros.
    -  verdade, mas estavam to bbados que penso que nem notaram a cor do meu vestido.
    Mitchell reconheceu que havia uma certa verdade no que ela dizia: os canalhas haviam visto uma mulher desacompanhada e resolveram violent-la. De qualquer forma, 
homens capazes de fazer tal coisa no iam se conter por causa de um vestido de luto.
    O corte severo e a cor negra da roupa acentuavam a beleza de Maura, e a alvura da pele de seu rosto e mos, mas Mitchell desejava v-la usando um vestido colorido. 
Na verdade, a fascinao que sentia por Maura Kenney no dava mostras de diminuir: pelo contrrio, aumentava. Apesar das brincadeiras dos irmos, especialinente 
do cnico Tyrone, Mitchell sempre acreditara que reconheceria sua mulher  primeira vista, e agora o instinto lhe diria que Maura Kenney era esta mulher. "Esta noite 
tentarei comprovar isso", pensou, "ainda que me arrisque a levar um soco no rosto".
    Ele retirou a chave das mos de Maura quando pararam em frente a seu aposento, e aproximou-se tanto dela que seus corpos quase se tocaram. Como suspeitava, Maura 
reagiu com irritao, mas isso no o desagradou.
    - Devolva a chave, sr. Callaham - disse ela com firmeza, apesar de sentir que seu corpo j reagia  proximidade de Mitchell.
    - Me chame de Mitchell - pediu ele, dando-lhe um beijo na testa.
    - Se no parar com estas impropriedades, vou cham-lo de coisas que no iro agrad-lo nem um pouco.
    - Acredito, pois ouvi o que disse queles homens...
    - Estava sendo atacada naquela ocasio!
    - No fique nervosa, minha linda Maura. Isto no vai doer!
    Sem nenhum aviso, Mitchell colou seus lbios aos dela com suavidade. Maura ainda quis dar um passo para trs, mas a surpresa da situao a pegou desprevenida. 
Nunca havia sido beijada nos lbios, nem mesmo pelos poucos rapazes que conhecera, e a delicadeza do toque de Mitchell a impedia agora de ser casta e seguir as lies 
ensinadas pela me.
    Uma voz se intrometeu em sua mente, dizendo que afinal um beijo fugaz no poderia manchar-lhe a pureza, e at tio Kenney comentara certa vez que um beijo no 
condenava uma senhorita ao fogo do inferno. Entretanto, quando Mitchell aprofundou o contato, ela pensou que aquele beijo a poderia condenar a outras fogueiras que 
no as do inferno.
    Ele acariciava sua boca com a lngua, tentando tirar partido dos lbios entreabertos de Maura, que, por sua vez, sentia vontade de abra-lo e entregar-se mais. 
Entretanto, quando esta vontade comeou a se tornar grande demais, ela ergueu as mos e o distanciou, sem conseguir evitar que o desejo estampado nos lindos olhos 
de Mitchell a continuasse atormentando.
    - Est bem, chega por agora, pois j tenho a resposta que buscava - disse ele em tom enigmtico, virando-se para abrir a porta do quarto.
    "Que estranho", pensou Maura ao entrar apressada e fechar a porta atrs de si. "Mas um rpido beijo no ter me causado mal", refletiu ao fitar o quarto iluminado 
 meia-luz. Ainda desconcertada, preferiu se preparar para deitar, a fim de tentar escapar ao turbilho de emoes que tomava conta dela.
    Havia algo em Mitchell Callaham que a afetava demais. Daquele momento em diante, seria aconselhvel manter distncia dele.
    Ser que Mitchell era sua cara-metade, que a me afirmava que toda mulher de sorte encontra na vida? Desapontada, Maura considerou que no podia realmente seguir 
os conselhos da me, pois ela apenas dera mostras de tudo que podia dar errado na relao entre um homem e uma mulher. Seu pai era charmoso e vivaz, mas pssimo 
marido, sempre magoando a esposa com suas constantes ausncias e infidelidades. O exemplo que tivera na juventude a fizera decidir que escolheria um marido por razes 
prticas, e no por almejar viver romance e paixo. E se, apesar de tudo, seu eventual marido revelasse ser como seu pai, ela no passaria a vida sofrendo como a 
me. Roubando-lhe um beijo, Mitchell demonstrara no ser o homem mais indicado para o casamento, pois ele poderia conquistar seu corpo e sua alma com demasiada facilidade, 
e lev-la a sofrer. No, jamais permitiria que homem algum se tomasse dono de seus sentimentos.
    
    Aps se aprontar para dormir, Mitchell afinal recostou-se desnudo na cabeceira da cama, com um copo de usque na mo e os pensamentos povoados por Maura Kenney. 
Aquela era a mulher que queria para si, e no havia mais dvida agora! Sua certeza tornou-se clara no momento em que sentiu a doura daqueles lbios e reconheceu 
o fogo que despertavam dentro dele, apesar da flagrante inexperincia dela. O problema, contudo, seria como faz-la perceber a profundidade de suas intenes.
    Outra idia lhe ocorreu ao sorver mais um gole da bebida e ao lembrar do medo que vira estampado nos olhos de Maura. O que a levou a afastar-se dele e correr 
para o quarto no fora simples pudor ou modstia, mas o receio das prprias sensaes. Claro que a falta de experincia contribua para que ela se apavorasse, mas 
havia naquela linda mulher algo que ele no conseguia compreender. Tinha de descobrir de que se tratava!
    Sem dvida ela tinha um segredo, ou algo que a marcara de modo profundo. Tudo fazia sentido agora: as respostas reticentes que dera a algumas de suas perguntas, 
e a dificuldade de encar-lo sempre que as emoes vinham  tona.
    "Maura se casar comigo", pensou Mitchell com um sorriso, avaliando que tinha somente alguns dias pela frente para convenc-la disso. "Mas no ser uma conquista 
fcil."
    
    
    Captulo III
    
    Ajeitando-se no assento do trem, Mitchell fez sua perna roar na de Maura, e sentiu satisfao ao notar que aquilo a perturbava. Quando se encontraram pela manh, 
no fora necessrio mais que um minuto para ele perceber que Maura decidira impor distncia entre os dois, tamanha a frieza e formalidade com que o tratava. Contudo, 
ela estava enganada se pensava que conseguiria mant-lo longe, pois Mitchell podia ser teimoso como ningum. Afinal, Maura era dele, e como no havia muito tempo 
para faz-la perceber tal fato, era bom comear logo.
    - Est apertado demais? - perguntou Maura com exagerada doura.
    - Necessito de espao para as pernas... - Mitchell sorriu.
    - Pelo visto, suas pernas crescem a cada quilmetro que o trem avana.
    - Talvez eu ainda esteja em fase de crescimento.
    Maura resolveu desviar o olhar e fitar a paisagem pela janela, sabendo que no adiantaria insistir na discusso, pois bastava que se distanciasse para que Mitchell 
tornasse a se encostar. Ela o havia cumprimentado com frieza no momento em que se encontraram pura o desjejum no restaurante do hotel; na certa Mitchell percehcra 
que o mantinha longe propositalmente, mas no parecia aceitar o fato, e fazia questo de se comportar de maneira charmosa e sedutora.
    - Qual a aparncia de sua prima Deidre? - perguntou ele com ar ingnuo.
    - Ela se parece comigo, mas tem olhos verdes e cabelos mais ruivos - explicou Maura, fingindo no perceber a maneira marota como a questo havia sido feita.
    - Ento h duas lindas ruivas viajando para Paradise neste momento - observou Mitchell. - Como ela segue viagem?
    - Em carruagem, sempre que possvel. E dever levar mais tempo para chegar, embora eu tenha me atrasado alguns dias.
    - Alguma razo para que tenha se atrasado?
    - No passei muito bem, e fui obrigada a esperar at que melhorasse.
    - Ficou doente?
    - Uma indisposio por ter comido algo que no devia. Esperei alguns dias, pois no me sentia forte para prosseguir viagem.
    - Compreendo. Como escolheram a rota que cada uma ia fazer?
    - Tiramos a sorte, e coube a mim vir por trem, pela rota mais direta. Deidre insistiu para que trocssemos, pois acreditava que vir por trem seria mais perigoso, 
mas por isso mesmo eu fiz questo de correr este risco.
    - Para viver um pouco de aventura? 
    - No. Para proteger Deidre.
    Maura o fitou, acreditando que ele talvez j tivesse adivinhado que Deidre estava mais preparada para enfrentar perigos, pois de alguma forma possua mais experincia 
de vida, mas era importante reiterar a razo pela qual escolhera tomar o trem ela prpria.
    - Como disse, meu tio Patrick e Deidre me aceitaram como membro da famlia, e jamais pediram algo em troca. Na verdade, eu no sabia qual rota seria mais perigosa, 
mas percebi que Deidre considerava a viagem por trem mais arriscada, por isso fiz questo de viajar de trem. Foi uma maneira que encontrei de agradecer o que fizeram 
por mim, e por me tratarem com tanto amor e carinho.
    - Entendo - disse Mitchell com honestidade. - Meu irmo Tyrone tambm tomou a rota mais indireta e difcil de ser seguida por eventuais pistoleiros, mas ele 
insistiu em trocar de lugar conrigo, e eu no o fiz exatamente pelos mesmos motivos. Quem sabe os dois tambm tenham se encontrado e sigam juntos?
    - No cr que seria coincidncia demais?
    - Aconteceu conosco, no foi? Se eles se encontraram, estou certo que Deidre tambm se negou a voltar para Saint Louis, e que meu irmo a conduzir a salvo para 
Paradise.
    - Seria timo! Deidre  uma mulher vivida e forte, mas um pouco de proteo  sempre bem-vinda quando se tem de enfrentar pistoleiros.
    Mitchell desviou o olhar e fitou os passageiros sentados nos outros assentos do trem, enquanto pensava no que poderia estar ocorrendo entre Tyrone e Deidre caso 
houvessem se encontrado. Seu irmo no hesitaria em seduzir Deidre Kenney se ela fosse to linda quanto Maura, mas, cnico como era, buscaria apenas desfrutar alguns 
bons momentos.
    "Eu tambm agiria assim", considerou Mitchell, "caso no soubesse que Maura  a mulher com quem desejo construir uma vida em comum". Porm, se chegassem a Paradise 
e encontrassem Deidre desiludida com o desenrolar das coisas entre ela e Tyrone, seria muito mais difcil convencer Maura da verdade de suas intenes.
    Mitchell no tardou a reparar que dois homens sentados alguns bancos adiante pareciam estar interessados nele e em Maura, apesar de fingirem estar se comportando 
de maneira normal. A todo momento se viravam para trs e faziam comentrios, pelo visto no eram espertos o suficiente para se manterem neutros. Maura com toda a 
certeza era linda o bastante para atrair a ateno masculina, mas algo lhe dizia que aqueles dois tinham outras intenes que no puro interesse masculino. Tenso, 
Mitchell desviou o olhar para que Maura no percebesse sua preocupao, mas resolveu manter-se alerta e vigiar os movimentos da dupla de suspeitos. Se por acaso 
se tornassem furtivos ou interessados demais, seria aconselhvel abandonar o trem o quanto antes.
    - O que pretende fazer com a recompensa que receber por este trabalho? - perguntou Mitchell, a fim de manter Maura distrada.
    - Minha prima e eu queremos investir o que ganharmos no stio, para produzir mais. - Maura teve a estranha sensao de que aquele plano parecia um sonho distante 
agora. - Meu tio tinha um emprego na cidade, e por isso no dependamos tanto dos frutos de nossa pequena fazenda, mas agora  diferente, e dependemos do que cultivamos 
para viver.
    - Pretendem se tornar fazendeiras?  um trabalho rduo para mulheres.
    - Deidre e eu estamos acostumadas a trabalhar duro, sr. Callaham.
    Mitchell notou que aquele comentrio a havia ofendido, mas tambm considerou que Maura teria de aprender a ser menos sensvel e no se importar tanto com fatos 
que no podia mudar. Nenhum homem fazendeiro gostaria de ver duas mulheres alcanarem xito na conduo de uma fazenda, pois isso no era considerado trabalho feminino, 
e os vizinhos certamente ficariam muito insatisfeitos caso fossem mais bem-sucedidas que eles.
    - Mesmo sendo capazes de trabalhar duro, no significa que seja um trabalho adequado para mulheres.
    - Nossa propriedade no  grande, mas temos uma mula, um arado e terras frteis. No acha certo tentar ganhar a subsistncia com o que possumos?
    - Compreenda o que quero dizer. Acredito que mulheres so capazes de trabalhar duro e fazer uma fazenda crescer e dar frutos, mas o preo a pagar  a exposio 
diria ao sol ou ao frio, as mos que se enchem de calos e as dores nas costas, que no tardam a chegar. Conheo fazendeiras bem-sucedidas, mas que perderam a beleza 
e parecem muito mais idosas do que realmente so. Se perguntar minha opinio, direi que  uma pena gastar a juventude e a beleza desta maneira.
    - Porm, no fiz tal pergunta, sr. Callaham - replicou Maura, arrependendo-se imediatamente por se tornar hostil outra vez. Entretanto, no era culpa dela se 
os comentrios de Mitchell produziam tais reaes. Incomodada com a discusso, ela ia tentar ecomtemporizar, mas o trem parou de repente. - Por que estamos parando?
    - Para encher o tanque de gua.
    - Outra vez?
    - Locomotivas a vapor consomem uma imensa quantidade de gua. Gostaria de sair e caminhar um pouco para esticar as pernas?
    Para surpresa dela, Mitchell levantou e a ajudou a vestir o casaco e colocar o chapu, amarrando a fita de cetim atrs da nuca como se cuidasse de uma criana 
prestes a sair para brincar na neve. Trat-la assim a incomodava e at a fazia se sentir insultada. Contudo, a maneira como a beijara na noite anterior, ao traz-la 
para o quarto, provava que Mitchell Callaham estava longe de v-la como criana, o que de certa forma, lhe dava um certo prazer. "Por Deus, que pensamentos confusos!" 
Conhecia aquele homem h menos de um dia, e ele j comeava a desestruturar sua fachada organizada e a descontrolar suas emoes.
    O ar fresco l fora fazia bem aos pulmes, e Maura respirou fundo, grata por ter uma trgua dos odores desagradveis que infestavam o vago: odores de pessoas 
sem higiene, fumaa da locoinotiva e charutos baratos.
    "Mas Mitchell cheira bem", pensou, imediatamente se arrependendo por tal pensamento.
    - No parece que vai nevar - disse ela, fitando o cu cinza, nws com rstias de sol, tentando mudar o rumo das prprias idias.
    - O inverno est suave - considerou Mitchell enquanto canrinlravam ao lado do trem.
    - Pelo menos torna nossa viagem mais fcil.
    - E a de nossos perseguidores tambm - lembrou Mitchell, contrariado.
    - Sinto muito por mencionar isso - ela acrescentou, sem esconder a culpa.
    - No se preocupe, creio que fui eu que comecei a me sentir despreocupado demais por nada de errado ter acontecido comigo.
    - Nada aconteceu porque seguia em sentido contrrio. No  difcil supor que os Martin tenham descoberto os planos de vocs, e  de se acreditar que no perderiam 
tempo em segui-los, pois sabem que nem voc nem seu irmo possuem os documentos e vinham ao encontro de quem os trazia. Mas as coisas mudam agora que estamos juntos, 
e o fato de me acompanhar chama a ateno sobre minha pessoa - completou Maura, notando que chegavam ao final do trem e virando-se para que recomeassem a caminhar 
de volta para o vago que ocupavam. - Talvez fosse melhor voc...
    - No - replicou Mitchell imediatamente.
    - Mas nem me deixou completar o que ia dizer!
    - Ia dizer que seria melhor deix-la prosseguir viajando sozinha.
    - Tal idia realmente me ocorreu. Se voc seguisse viagem para Saint Louis, talvez isso os despistasse, pois continuariam seguindo-o, esperando que encontrasse 
quem traz as escrituras.
    - De qualquer forma, agora j no faz mais sentido, pois com certeza j perceberam que passei a acompanh-la.
    - Talvez pensem que eu esteja flertando com um cavalheiro que encontrei no caminho, e que voc resolveu interromper por algum tempo a busca das escrituras para 
me acompanhar durante um trecho da viagem.
    - Os Martin certamente instruram seus pistoleiros sobre a maneira exata de proceder. No creia que poderemos ludibri-los com tanta facilidade.
    Maura ainda ia insistir, mas o que aconteceu a seguir a apanhou completamente desprevenida. Mitchell virou-se para fitar o espao entre dois vages, e de repente 
a afastou com um gesto to brusco que a fez cair no cho gelado. No instante seguinte, os tiros comearam a soar, e Mitchell se atirou sobre ela, cobrindo-a com 
o prprio corpo. Confusa, Maura percebeu que outros passageiros que tambm haviam sado para caminhar agora corriam para se colocarem a salvo.
    Por um horrvel momento ela temeu que Mitchell houvesse sido atingido, e um turbilho de remorso lhe invadiu a alma. Contudo, ele rolou para o lado, arrastando-a 
consigo.
    - Oh, meu Deus! Pensei que tivesse sido baleado! - disse Maura, sem esconder o alvio.
    - Ainda no, mas h dois homens que desejam muito nos balear! Mantenha-se deitada - ordenou Mitchell, tornando a se deitar sobre ela.
    "Como se tivesse outra opo", pensou Maura, sentindo o prprio corao bater descontrolado.
    Ela fitou Mitchell, que erguia a cabea para averiguar os arredores, e de repente tudo se tornou claro em sua mente: at agora pensava ter conscincia dos riscos 
que corria e acreditava estar tomando conta de si mesma de maneira satisfatria, mas a crua verdade era que os pistoleiros contratados pelos Martin a viam como um 
alvo, e no teriam escrpulos em mat-la, assim como fizeram com Bill e seu tio Patrick. A vida dela e a de Deidre nada significavam, assim como a vida dos Callaham. 
E tamanha violncia e matana advinham do vil desejo de uma famlia de enriquecer cada vez mais roubando propriedades!
    A fria, porm, j comeava a correr em seu sangue e lhe dava foras para lutar: os assassinos no conseguiriam obrig-la a se esconder ou fugir, morta de medo. 
Naquele momento, gostaria de ser homem para poder levantar e lutar ao lado de Mitchell, e defend-lo tanto quanto ele a defendia, em vez de se ver oprimida pelo 
peso daquele corpo enorme que a cobria para evitar que fosse atingida. Ainda mais furiosa, Maura reconheceu que a vontade de vingar a morte do tio e de Bill tomava 
conta de seu corao. Ela morreria por isso se fosse necessrio.
    De sbito, Mitchell disparou um tiro pelo espao entre dois vages, e Maura percebeu que o fato de estarem deitados no cho os colocava em posio desfavorvel. 
O estampido da arma soou to forte em seu ouvido que a ensurdeceu por um momento, mas ao virar a cabea, ela notou que um homem que tentava alcan-los arrastando-se 
por debaixo dos vages fora atingido e agora jazia cado nos trilhos.
    Mitchell se ergueu e de imediato a puxou para que se colocasse em p, tomando-a pelo brao e obrigando-a a correr. Quando alcanaram o espao entre os prximos 
dois vages, Maura viu que algum os seguia pelo outro lado do trem. Mitchell tomou a atirar, e o homem foi ao cho. Depois disso, ela notou que dois guardas ferrovirios 
se aproximavam correndo, e apesar de sentir-se um pouco mais segura, ela se manteve ao lado de Mitchell, pois tambm os guardas no pareciam muito amigveis.
    - S dois homens? - perguntou Mitchell aos guardas quando estes pararam  sua frente, sem esconder que no apreciava a maneira hostil como fitavam a ele e Maura.
    - Sim - respondeu um dos agentes, mirando os dois dos ps  cabea. - Estavam atrs de voc e desta mulher?
    - Estavam. Notei que agiam de forma suspeita pouco antes do trem parar, e que observavam nossos movimentos - explicou Mitchell. - Mas no sabia que havia guardas 
no trem.
    -  exatamente o que pretendemos: passar despercebidos. Voc tem razo, a atitude suspeita deles tambm chamou nossa ateno - disse o agente antes de se abaixar 
para fitar o corpo cado do outro lado do trem. - Mas pensamos que planejassem um roubo, no assassinar outros passageiros.
    - Me pergunto como pretendiam escapar.
    - Havia outro pistoleiro esperando com cavalos ao lado da torre de gua. Ns tentamos captur-lo, mas ele conseguiu fugir a galope.
    - Maldio! - praguejou Mitchell. - Tinha a esperana de que havamos nos livrado destes animais.
    Maura se afastou um pouco e observou a conversa dos agentes com Mitchell. Os guardas faziam inmeras perguntas, mas era visvel que Mitchell pretendia revelar 
o menos possvel sobre o caso. Os agentes agora pareciam desconfiar de Mitchell como se tambm ele fosse bandido.
    - Por que insiste em no revelar a razo pela qual os perseguiam? - perguntou o agente que se mostrava mais hostil e zangado.
    - Porque se trata de uma questo pessoal, e no h nada que possam fazer para ajudar a solucionar o problema - respondeu Mitchell. - Sei quem est tentando nos 
capturar e o porqu, mas no posso fazer acusaes, pois no teria como provar.
    - Mantenha seus problemas privados em segredo, se assim o desejar, mas ter de faz-lo longe daqui. Por esta vez os deixaremos seguir viagem, pois vimos que 
no comearam o tiroteio e foram atacados de surpresa. Contudo, tero de descer na prxima estao e seguir viagem de outra maneira, pois no queremos problemas 
no trem que devemos proteger. E pode estar certo que estaremos l para conferir se realmente vo embora e levam suas disputas consigo - finalizou o agente, antes 
de acenar para o condutor apavorado que esgueirava o olhar pela porta de um dos vages adiante, aguardando permisso para prosseguir viagem.
    
    
    Captulo IV
    
    - Expulsos do trem! Colocados para fora como criminosos! Nunca fui to... to... - reclamava Maura exaltada enquanto caminhavam para o hotel simples, mas grande 
e recentemente inaugurado.
    - Ultrajada? - comentou Mitchell sorrindo.
    - Voc no parece se importar.
    - Que posso fazer? - disse ele, dando de ombros. - Tentaremos tomar o prximo trem se no demorar muito para passar. Vou me informar na estao.
    - No acho que valha a pena. Vi aquele guarda entrando na agncia de telgrafo, e duvido que tenha ido enviar notcias para a me. Suponho que tomar outro trem 
no seja uma opo, pois esse guarda certamente j avisou a nosso respeito.  como se tivssemos o rosto estampado num cartaz de Procura-se.
    - Ento seguiremos de carruagem. Ou a cavalo.
    - Neste frio? No sei cavalgar direito. Deidre tentou me ensinar, mas nunca aprendi a cavalgar to bem quanto ela.
    - No se preocupe, pensarei em uma outra alternativa - afirmou Mitchell. Ele depositou as malas em frente ao hotel, e se aproximou tanto de Maura que a fez encostar 
na parede de madeira do casaro.
    - Est se comportando de maneira imprpria outra vez, sr. Callaham.
    - S quero que siga na frente, pura cortesia.
    - E precisa me encostar contra a parede?
    Mitchell tornou a sorrir, e seus olhos brilharam com determinao.
    - Vamos nos registrar como um casal, senhor e senhora Booker, e ficaremos no mesmo quarto.
    - Quem resolveu isso?
    - Eu! E pare de me olhar como se eu fosse um monstro. No vou dizer que meus pensamentos a respeito de compartilhar o mesmo quarto sejam totalmente inocentes, 
mas no  seduo o que tenho em mente, e sim, sobrevivncia. Sabe que tentaram nos matar, e no fizeram questo de serem discretos.
    Maura preferiu nada dizer com relao ao comentrio sobre seduzi-la, e referiu-se ao ataque.
    - Haviam planejado uma maneira de escapar.
    - Sim, mas foi um ataque ousado e teremos de ser cuidadosos daqui por diante.
    - Estamos nos aproximando de Paradise - observou Maura, e Mitchell concordou com a cabea.
    - Quanto mais nos aproximamos, mais eles se tornam ousados, e no poderei proteg-la se estiver dormindo em outro quarto no fundo do corredor.
    Ele tinha razo, e Maura avaliou a situao. Ningum sabia que as escrituras que trazia eram cpias falsificadas, e ela se sentia culpada por no ter contado 
a Mitchell. Mas, teria de manter as aparncias, pois tambm a segurana de Deidre dependia disso.
    Compartilhar um quarto com Mitchell seria constrangedor, mas no era hora de deixar a inocncia falar mais alto. Dividir tanta intimidade com aquele homem atraente 
e forte trazia perigos, no entanto, o mximo que podia acontecer era perder a virgindade, e ela poderia sobreviver a isso. Perder a virgindade, neste momento, era 
melhor do que perder a vida!
    - Por que nos registrar com nomes falsos? Acha que enganaremos nossos perseguidores?
    - Talvez - disse Mitchell preocupado.
    - Mas no por muito tempo, no ? De qualquer forma, tornaria as coisas um pouco mais difceis para eles, e poderamos ganhar algum tempo - avaliou Maura. - 
Vamos entrar?
    - No vai me fazer prometer que tenho de me comportar? - admirou-se Mitchell, inclinando-se para pegar as malas sobre o cho.
    - Adiantaria alguma coisa?
    - Provavelmente no - replicou ele, fazendo um sinal para ela tomar a dianteira.
    Maura considerou que ao menos havia alguma coisa de bom na maneira honesta como ele a tratava, sem querer se fazer passar pelo inocente que no era, pois tal 
transparncia tornava as coisas claras e lhe dava maior chance de se opor. Resoluta, ela atravessou o salo de entrada e dirigiu-se para o balco de registro de 
hspedes, segura de si, at mesmo um pouco arrogante. Intimidado, o rapaz que os atendeu no fez perguntas e nem notou que no usavam aliana de casamento.
    Com prazer, Maura ouviu Mitchell requisitar um aposento com banheiro privativo, um luxo que principiava a se tornar freqente nos hotis, mas encarecia enormemente 
o preo da estadia e s era utilizado por pessoas de excelente condio financeira. Aquilo a fez pensar no montante da fortuna dos Callaham. A fazenda Kate devia 
ser bastante grande e as minas certamente rendiam muito dinheiro. De qualquer forma, os Martin no se arriscariam a tanto se no tivessem muito a lucrar. De sbito, 
a idia de que Mitchell Callaham era um homem rico a fez se sentir desconfortvel.
    S ao entrar no quarto, foi que Maura se sentiu realmente desconfortvel, pois percebeu que havia apenas uma cama de casal. Com certeza Mitchell no a obrigaria 
a fazer nada contra a vontade, e ela seria respeitada se dissesse no com firmeza. Mas era justamente isto que lhe dava medo - nada garantia que dissesse no! Como 
podia se sentir assim com um homem que acabara de conhecer?
    A memria do beijo do dia anterior voltou  sua mente, fazendo-a se arrepiar. Em parte, ela no se importava com o fato de se conhecerem h to pouco tempo; 
esse era um lado de sua personalidade at ento desconhecido e que a surpreendia. Maura sempre vira a si prpria como uma mulher reservada, e at um pouco fria, 
mas agora um novo lado de seu ser vinha  tona: uma certa devassido desapegada das regras de moral que at ento norteavam sua conduta. Era difcil aceitar que 
a armadura de proteo que construra em torno de si, agora comeasse a ruir por causa daqueles olhos escuros e sensuais e daquele sorriso charmoso.
    - Vou tomar um banho quente, sr. Callaham - anunciou ela assim que Mitchell fechou a porta atrs de si.
    Admirado, ele colocou as malas no cho e a fitou, notando que Maura estava nervosa. Havia se comportado to altiva e segura quanto uma rainha, ao fazerem o registro, 
mas agora parecia perder o controle e se mostrava ansiosa. Tomara que o banho quente a acalmasse, pois seno poderia gritar de desespero caso ele a tocasse.
    - Vou pedir que tragam o jantar aqui.
    - Vamos comer no quarto?
    - Creio que  melhor nos expormos o mnimo possvel.
    - Est certo, compreendo - aceitou Maura, sabendo que ele tinha razo.
    Ela abriu a mala e comeou a decidir o que ia vestir depois do banho. No fazia sentido tornar a colocar um vestido, j que no sairiam mais do quarto. Se tudo 
indicava que iam dividir momentos de intimidade dali para a frente, era melhor enfrentar a situao com naturalidade. Escolheu uma camisola e o roupo de flanela: 
eram roupas para dormir, e ao mesmo tempo eram discretas e a cobririam totalmente.
    - Pode pedir que tragam vinho para acompanhar a comida? - perguntou enquanto separava a ncessaire com sabonete e demais artigos para o banho.
    - Como quiser - respondeu Mitchell, fitando-a de modo desconfiado. - Est tudo bem?
    - Sim, claro. Creio que me sentirei melhor depois de um longo banho quente - explicou Maura, tentando sorrir com neutralidade. - O dia foi um tanto longo para 
mim, e com incidentes no muito agradveis.
    -  normal que necessite um banho quente para relaxar. Mas, por favor, no deixe o banheiro cheirando a colnia de rosas - pediu Mitchell com uma careta de desgosto.
    Maura sorria ao se trancar no banheiro e abrir a torneira da banheira, lembrando-se do tio, que sempre reclamava quando usava o banheiro depois delas e saa 
cheirando a perfume feminino. Era mesmo engraado, pensar num homem to grande e viril como Mitchell Callaham cheirando a rosas!
    Depois de colocar sais de banho na gua, ela se despiu e prendeu o cabelo sobre a cabea. Em breve j se deitava dentro da gua morna, pensando que nada no mundo 
parecia horrvel demais ou podia causar muita preocupao quando se desfrutava de um banho de imerso.
    O ataque no trem a perturbara bastante, mas tambm era obrigada a admitir que a proximidade de Mitchell tinha um efeito devastador sobre seus nervos; estar perto 
de um homem to atraente perturbava qualquer mulher. Relutante, Maura reconheceu que o atraente Mitchell Callaham, de ps enormes e sorriso malicioso, ameaava sua 
integridade sem que ela soubesse que armas usar para manter a calma e o bom senso.
    Mas para que manter a calma e o bom senso?
    Novamente aquele seu lado libertino se imiscua em seus pensamentos, obrigando-a a responder questes que jamais faria em outras circunstncias. Enquanto passava 
a esponja com movimentos delicados sobre os braos e os seios, Maura refletiu que o casamento era a maneira que inmeras mulheres possuam para garantir um futuro, 
e a virgindade e castidade eram requisitos preestabelecidos. Contudo, tanto ela quanto Deidre tinham um futuro j delineado e no necessitariam casar para garantirem 
a vida. Auto-suficientes, no dependiam de homem algum e podiam manter-se sozinhas.
    H tempos atrs, Maura decidira que no seria como sua me, que se tornara um joguete nas mos do marido ausente e cuja felicidade dependia dos raros momentos 
em que ele estava por perto e resolvia lhe dar ateno. Embora perfeitamente capaz de paixo e sensualidade, Maura decidira casar, se algum dia o fizesse, apenas 
por razes prticas. Mas pensando bem, o que a impedia de ter ambas as coisas? Poderia viver momentos de paixo e sensualidade com Mitchell agora, e mais tarde casar-se 
com outro homem que lhe trouxesse estabilidade e boa companhia. Sentia que poderia experimentar momentos de sensualidade selvagem com Mitchell Callaham; no gostaria 
de passar pela vida sem tais sensaes. Porm, como casar com um homem respeitvel no Missouri se perdesse a virgindade agora?
    Suspirando, Maura notou que se deixara perder em pensamentos por um tempo longo demais, e a gua da banheira havia esfriado e se tomado desconfortvel. De qualquer 
maneira, ainda tinha tempo para decidir se devia ou no se tomar amante de Mitchell. Tais pensamentos a excitava e aterrorizava ao mesmo tempo, pois era um plano 
um tanto quanto escandaloso. Mas no devia descartar esta opo sem mais nem menos!
    - Que pensamentos estranhos - murmurou, surpresa ao se flagrar refletindo sobre tais questes. Ser que o fato de ter aceitado desempenhar uma tarefa to arriscada 
a fazia perder a cabea e ter pensamentos libertinos e mundanos?
    Maura suspirou, pegou a toalha e saiu da banheira, pensando que o fato de ter encontrado algum como Mitchell talvez amotivasse a se transformar em outra pessoa. 
Mas, tudo o que tinha de fazer agora era se enxugar, vestir a camisola, abotoar o roupo at em cima e enfrentar a companhia dele no quarto.
    Assim que ela saiu do banheiro, Mitchell anunciou que o jantar seria trazido brevemente, e seguiu para o banheiro, fechando a porta atrs de si. No instante 
seguinte, Maura riu ao ouvi-lo praguejar por causa do aroma doce dos sais de banho e colnia que infestavam o ambiente.
    Ela sentou e passou a esfregar os cabelos com a toalha, at sec-los. Sentia-se mais calma agora, talvez por ter retirado o poder de deciso das mos sedutoras 
de Mitchell e t-lo colocado em sua prpria vontade. Mesmo que entregar-se a um amante temporrio fosse um plano escandaloso, ao menos ela passara a enxergar a questo 
como uma mulher adulta e no como uma adolescente aterrorizada.
    O jantar no tardou a chegar, e Maura indicou que o servissem 'na mesa ao lado da janela. Mal acabara de sentar  mesa, o estranho e efmero sentimento de segurana 
se desfez quando Mitchell saiu do banheiro e irrompeu pelo quarto com o peito desnudo e vestindo somente as calas. Ela observou seu peito musculoso e bem delineado, 
e num gesto automtico, seu olhar baixou at notar os plos negros e espessos que comeavam numa linha abaixo do umbigo e sumiam por dentro da cala apertada. Mais 
uma vez aquele lado devasso de Maura veio  tona, e ela perguntou a si prpria como Mitchell Callaham seria se estivesse completamente nu. Perturbada, respirou fundo 
e desviou o olhar para a janela, preferindo afastar tal interrogao.
    Enquanto vestia uma camisa, Mitchell, satisfeito, refletiu que no era arrogncia acreditar ter vislumbrado um brilho de apreciao nos olhos de Maura. Afinal, 
no era a primeira vez que ela demonstrava no conseguir esconder o que pensava nem o que sentia. No demorou para que ele se sentasse na cadeira do outro lado da 
mesa, fitando-a com bom humor.
    - Estou decente agora, senhorita. Pode tornar a olhar para c.
    Maura se virou, tentando manter a calma, mas desviou o olhar para a comida sobre a mesa e passou a se servir de salada. Talvez entabular uma conversa ajudasse 
a desanuviar a situao, e ela fez perguntas sobre a famlia Callaham e a vida que tinham. Mitchell respondia a tudo sem se incomodar, e logo Maura se conscientizou 
da imensa distncia que os separava. Os avs de Mitchell eram pobres quando emigraram da Irlanda para os Estados Unidos, mas a famlia j tinha muitas posses quando 
ele nasceu, possibilitando que fosse criado em meio  fartura. Na verdade, a nica razo para que se aproximassem, viajassem juntos e compartilhassem o mesmo aposento 
era o trabalho de Patrick Kenney. Mesmo que os Callaham vivessem em Saint Louis, seguramente ela jamais os teria conhecido, pois pertenciam a classes sociais muito 
diferentes e freqentavam ambientes aos quais ela no tinha acesso.
    Quando terminaram de comer e Mitchell depositou a bandeja no corredor fora do quarto, Maura sugeriu que jogassem cartas, tentando adiar o momento em que teriam 
de deitar-se na mesma cama. O sorriso de Mitchell mostrava que ele sabia disso muito bem, mas mesmo assim, aceitou jogar. Ainda havia vinho na garrafa, e ele afastou 
as taas para abrir espao enquanto Maura providenciava o baralho.
    Ela ganhou com facilidade a primeira rodada de pquer, e notou que Mitchell comeava a levar mais a srio a sua capacidade.
    - Onde aprendeu a jogar to bem? - perguntou ele, tomando um gole de vinho.
    - Infelizmente meu pai era um jogador inveterado - admitiu Maura, tambm sorvendo um gole da bebida. - Creio que me ensinou a jogar, pois no sabia como brincar 
com uma menina. Mais tarde, tio Patrick me ensinou ainda mais. Ele tambm apreciava jogar, apesar de s faz-lo para passar o tempo, jamais a dinheiro.
    Jogaram vrias rodadas e, apesar de Mitchell ter ganhado algumas delas, Maura saiu vitoriosa no cmputo final. Terminaram o vinho, e ele colocou o baralho de 
lado.
    - J tomamos banho, comemos e jogamos cartas. H algo mais que queira fazer antes de irmos para a cama?
    Maura pensou em dar uma bofetada naquele rosto lindo, em resposta ao sorriso cnico com que ele a fitava e o tom dbio comentrio, mas resolveu controlar-se.
    - Voc poderia dormir no cho. - Sugeriu Maura, tentando parecer casual.
    - Seria to cruel comigo? - instigou Mitchell, fingindo estar magoado.
    - No serei to cruel se me garantir que no vai ficar se encostando em mim da maneira como fazia no trem - avisou Maura ciente de que no seria justo exigir 
que ele passasse a noite no cho duro, e resolvendo que tambm ela no ia arcar com tal desconforto.
    - Posso prometer que no o farei - comeou Mitchell erguendo-se, dando a volta na mesa, apoiando as mos sobre os braos da cadeira de Maura e inclinando-se 
sobre ela como se enjaulasse. - Mas como ter certeza que cumprirei a palavra?
    Maura respirou fundo e manteve o olhar baixo, pois no desejava fitar aqueles lbios masculinos e sensuais to perto dos seus.
    - Por estranho que parea, acredito que manter sua palavra sr. Callaham. De qualquer forma, no tenho opo, pois seguimos juntos para Paradise e concordei 
que seria melhor compartilharmos o mesmo quarto por questes de segurana. De agora em diante sou forada a acreditar que voc vai honrar o que diz.
    - No se preocupe, minha linda. Vamos deitar, e asseguro que me comportarei. - Mitchell retirou os braos e afastou-se um pouco, dando a ela espao para se levantar.
    - Bom... vou me deitar, ento - disse Maura.
    - Pelo menos me deixe acompanh-la ao leito - Mitchell disse, colocando o brao sobre seus ombros e levando-a para cama.
    Maura preferiu no protestar, mas no estava preparada para que veio a seguir. Ao se aproximarem da cama, ele a fez virar-se beijou seus lbios de maneira doce 
e sensual. Sem perceber, Maura abriu a boca, permitindo que o contato se aprofundasse; imediatamente Mitchell a enlaou pelas costas e puxou-a de encontro a si. 
Notando o quanto ele estava excitado, Maura se deixou levar pela sensao corporal e tambm o abraou, sentindo o corao disparar e consciente da presso do peito 
de Mitchell contra seus seios. Entretanto, a maneira surpreendentemente rpida e inesperada com que essas sensaes tomaram conta dela a fez se afastar.
    - Melhor pararmos com isso.
    - Tem certeza?
    - Absoluta.
    Frustrado e pesaroso, Mitchell a fitou com os olhos ainda brilhando, sedentos e desejosos. Era maravilhoso perceber que Maura se incendiava com seus toques tanto 
quanto ele se incendiava ao toc-la, mas necessitava ter pacincia at que chegasse o momento em que ela decidisse se render ao que sentia.
    Mitchell esperou que ela tirasse o roupo, sem conseguir deixar de se divertir com a camisola grossa e pudica que Maura usava. Quando ela se deitou, ele tirou 
as calas e ficou somente com as cuecas, pensando que seria uma tortura estar to prximo dela e manter-se afastado.
    Apagou o abajur sobre a mesa, mas manteve duas velas acesas no castial sobre a cmoda, sabendo que em breve se extinguiriam. Em seguida deitou-se ao lado de 
Maura, sentindo o perfume da colnia de rosas e o aroma feminino que o corpo dela exalava. Aquilo o excitava ainda mais! Se no conseguisse se acalmar, certamente 
no dormiria a noite inteira!
    - Voc tambm me deseja - ele murmurou afinal, num tom que no era acusatrio, mas a mera constatao de uma verdade.
    - Sei que no posso esconder o que sinto.
    - Mas ainda assim, pretende continuar me afastando.
    - Sim, se for obrigada a faz-lo.
    - Eu gosto de vencer.
    - Eu tambm, sr. Callaham.
    - Maldio... - ele ainda praguejou, entre zangado e bem- humorado, enquanto Maura se virava para o outro lado e cerrava os olhos.
    
    
    Captulo V
    
    Muito contrafeita, Maura era obrigada a colar cada vez mais seu corpo ao de Mitchell enquanto a carruagem saltava pelos pedregulhos da estrada congelada. Sentada 
no meio do banco, a seu lado viajava um homem franzino e careca que pelo visto no imaginava que gua existia tambm para as pessoas tomarem banho: cada movimento 
da carruagem o fazia liberar um odor cido e ptrido, mistura de suor de muitos dias e sujeira de toda sorte.
    Haviam sido obrigados a esperar um dia a mais no hotel para apanharem a carruagem, mas Maura preferiria ter esperado ainda mais, pois o veculo estava lotado 
e a nica companhia agradvel a seu lado era Mitchell. Alm do fedorento companheiro no mesmo assento, em frente a ela seguiam o sr. e a sra. Dixon, ambos malhumorados, 
e outro passageiro que j chegara bbado e, espremido entre a gorda sra. Dixon e a parede de madeira da carruagem, continuava ingerindo goles de uma pequena garrafa 
de metal. A bebida, contudo, parecia coloc-lo num estado de torpor, e ele no dava mostras de se importar pelo pouco espao que lhe restava em virtude da obesidade 
da senhora a seu lado.
    Mais uma vez Maura foi obrigada a prender a respirao quando outra onda de fedor se despregou do companheiro  sua direita, e no pde deixar de notar o prazer 
de Mitchell ao v-la colar mais seu corpo ao dele. Mitchell no perdera nenhuma oportunidade de seduo enquanto permaneceram no hotel, tentando roubar seus beijos, 
colocando os braos sobre seu ombro ou tocando-a sem necessidade.
    Quanto a ela, demonstrara inmeras vezes que aquilo no a agradava, e apesar de no gostar de encostar-se a ele na carruagem, pelo menos Mitchell no cheirava 
mal e era mais simptico que o restante do grupo.
    - Talvez queira sentar no meu colo? - perguntou ele, tornando a colocar o brao sobre seus ombros.
    - Recm-casados? - perguntou a sra. Dixon  frente deles, observando o gesto de Mitchell e o sorriso que exibia no rosto.
    - Estamos em lua-de-mel e eu sou muito apaixonado por esta mulher- inventou Mitchell, beijando Maura na orelha, num gesto sutil e por demais ousado.
    Gostaria de mat-lo, pensou Maura. E bem devagar!
    - Mas no usam alianas - continuou a gorda mulher. - Espero que no estejam pregando peas numa senhora de idade.
    Apesar de incomodada pela rudeza daquela desconhecida que a todo instante fazia perguntas indiscretas, Maura forou-se a responder num tom delicado e bem-educado.
    - Guardei nossas alianas num local seguro, senhora, pois ouvi muitas histrias de furtos. Estas alianas pertenceram a meus pais, e eu ficaria inconsolvel 
se fossem roubadas.
    - Sbia deciso, minha querida - julgou a senhora, arrogando-se uma informalidade que no lhe havia sido concedida. - Estou certa que um casal to lindo vai 
gerar crianas lindas tambm - acrescentou, piscando o olho e tocando o enorme estmago, que parecia querer saltar para fora do vestido.
    Maura corou ante a idia de gerar uma linda prole com Mitchell, mas casamento no estava em seus planos, muito menos nos dele. Mitchell, entretanto, apressou-se 
a comentar que de fato gostariam de formar uma grande famlia, e isso foi a gota d'gua para Maura decidir que mat-lo era pouco: melhor seria tortur-lo por dias 
e dias at ele pedir para morrer!
    Desesperada de vontade de sair daquela situao desconfortvel e de se livrar dos odores malignos, Maura quase caiu ao saltar da carruagem quando atingiram a 
ltima parada, e Mitchell teve de segur-la pela cintura para equilibr-la. Respirando fundo e tentando sorrir, ela fez um esforo para se despedir dos desagradveis 
companheiros de viagem. O cocheiro se aproximou para indicar uma pequena hospedaria do outro lado da rua, que, arrogante, ostentava a placa Grande Hotel. Enquanto 
caminhavam, Maura viu de relance uma pequenina igreja no final da rua, e decidiu que a visitaria mais tarde, para rezar e pedir a Deus que desse foras para ela 
suportar os rigores daquela viagem.
    O aposento era limpo, mas nada mais do que isso. Desta vez no tinham banheiro privativo, e necessitavam dividi-lo com outros hspedes. Felizmente, a modesta 
hospedaria no estava cheia, e no ter de dividir o banheiro com muita gente, suavizava a situao.
    - O jantar estar pronto em uma hora - avisou Mitchell quando ela retomou para o quarto aps a higiene no banheiro.
    - Ento terei tempo de ir  igreja - comentou Maura, j pegando o chapu e o casaco para tomar a sair. 
    - Ir  igreja?
    Maura no entendeu por que ele se mostrou surpreso, pois lhe explicara que retomava da igreja quando se encontraram pela primeira vez. Apesar de no ser religiosa 
fantica, acreditava que era benfico rezar em momentos como aqueles que viviam agora e pedir proteo para o bom desenrolar das coisas.
    - Vou rezar por meu tio Patrick e seu amigo Bill. Gosto de fazer isso sempre que  possvel, e a ltima oportunidade que tive oi quando nos encontramos pela 
primeira vez. Agora, tambm rezarei para que sua famlia consiga manter as propriedades que possuem, e por voc.
    - Quer tentar salvar minha alma tambm? - Mitchell perguntou, com um sorriso maroto.
    - No custa tentar - rebateu Maura com ironia. - No precisa vir comigo, no espero que outras pessoas faam o que fao nem que tenham os mesmos valores que 
eu.
    - Tambm costumo ir  igreja vez por outra - assegurou Mitchell -, mas no  por isso que a acompanharei agora. Sabe que no pode ficar passeando sozinha, pois 
 arriscado.
    - A igreja fica no fim da rua, e no terei de passear.
    Sem mais nenhum comentrio e ainda sorrindo, Mitchell a tomou pelo brao para sarem. Apesar de no haver mencionado, Maura tambm necessitava pedir perdo por 
mentir, pois no revelara que as escrituras que trazia eram falsificaes sem valor legal. Jamais dissera que trazia os documentos verdadeiros, mas seu silncio 
indicava que o fazia. E isso era to ruim quanto mentir.
    Depois de se certificar que a pequenina igreja estava vazia, Mitchell resolveu sair para fumar. Maura retirou o rosrio dado pela me instantes antes de falecer, 
e principiou a rezar usufruindo da calma que o ritual da orao proporcionava ao seu corao. Ela cerrou os olhos ao terminar o tero, e pediu perdo pelo pecado 
que cometeria caso de fato a paixo a vencesse, fazendo com que entregasse seu corpo a Mitchell. Afinal de contas, perder a virgindade significava no somente romper 
certas regras sociais, mas tambm romper preceitos da Igreja.
    Insuficiente para me fazer parar, refletiu consigo mesma ao erguer-se e caminhar para a porta da capela.
    Subitamente, um rudo estranho do lado de fora chamou sua ateno e a fez hesitar. A princpio, pensou que Mitchell conversava com algum, mas um rudo abafado 
e uma breve exclamao de dor a tornaram alerta e preocupada. Maura abriu a porta devagar e com cautela para tentar ver o que se passava, e no pde evitar o horror 
ao perceber que trs homens atacavam Mitchell no meio da rua.
    Tentando passar despercebida, ela se esgueirou pela porta entreaberta sem chamar ateno; sabia que necessitava correr em seu auxilio, mas devia esperar pelo 
momento certo. Havia uma p para escavar terra encostada  parede da igreja, pouco adiante, e Maura resolveu que a usaria como arma.
    Os trs homens continuavam golpeando Mitchell sem piedade, mas ainda assim era preciso esperar at o momento adequado surgir. No entanto, quando Mitchell foi 
ao cho e um dos atacantes sacou um punhal, Maura decidiu que no podia mais esperar: com um grito de fria, ergueu a p e correu na direo em que eles estavam.
    O homem que portava o punhal olhou para trs surpreso, e Maura desferiu-lhe um tremendo golpe no rosto, fazendo com que ele casse e soltasse a faca. O sangue 
j comeava a jorrar de seu nariz quando ela tornou a acert-lo com a p, desta vez no estmago. Enquanto conferia se de fato o colocara fora de combate, Maura no 
percebeu que um outro agressor se aproximava rapidamente. Ela ergueu a p e tentou acert-lo, mas desta vez, errou. Neste instante, notou que Mitchell ao menos se 
levantara e dava socos no terceiro atacante, aproveitando-se de uma distrao dele.
    O segundo homem conseguiu tirar a p das mos de Maura e lan-la longe. Mitchell, contudo, que j havia feito o oponente cair por terra, aproximou-se correndo 
por trs e dominou o nico agressor que seguia lutando, no exato instante em que ele ia agarrar Maura. Furioso, socava o bandido com tanta fora que ela receou que 
Mitchell fosse acabar matando o pistoleiro; mas ele se controlou quando tambm este homem foi ao solo, cobrindo o corpo com os braos para evitar os pontaps.
    No instante seguinte, Maura ouviu gritos masculinos, e ao virar a cabea deparou-se com outros homens que se aproximavam correndo. Aliviada, percebeu que se 
tratava de agentes da lei, e pediu a Deus que um deles fosse o xerife, pois pelo menos poderiam prender os bandidos, e quem sabe os Martin finalmente fossem incriminados.
    Ao tornar a fitar Mitchell, notou que ele cambaleava e dobrava as pernas, caindo de joelhos ao lado do homem que conseguira vencer.
    - Mitchell - ela gritou, correndo em seu auxilio. - Eles o acertaram com o punhal? - perguntou com horror.
    - No, minha linda, pois minha herona me salvou antes que o fizessem.
    - O que est acontecendo aqui? - perguntou um dos homens, justamente o que trazia uma reluzente estrela de xerife no peito. - Quem comeou uma briga na frente 
da igreja?
    - Foram aqueles trs que nos atacaram, senhor - explicou Maura, ajudando Mitchell a se levantar.
    - Ladres? - quis saber o xerife, erguendo o rifle e apontando para Mitchell.
    - No - explicou Mitchell j em p. - So pistoleiros contratados por inimigos de minha famlia.
    O xerife pareceu aceitar a explicao e fez um gesto indicando aos ajudantes que tomassem conta dos trs pistoleiros cados. Em seguida, virou-se para Mitchell 
e fitou-o, agora desviando a arma.
    - Parece que tem inimigos poderosos, filho - disse, e voltou-se para os guardas outra vez. - Coloquem as algemas nestes miserveis - ordenou antes de tornar 
a fitar Mitchell. - Ficaro por aqui para acus-los caso sejam julgados?
    - Infelizmente no ser possvel, senhor - replicou Mitchell -, pois tenho um assunto a terminar antes do ano novo. Por isso estes homens me atacaram, para me 
impedir de chegar a tempo e fazer o que tenho de fazer.
    - No quero visitantes que tragam problemas para minha cidade - avisou o xerife. - Bastam os que j tenho.
    - Est nos mandando embora? - perguntou Maura chocada.
    - Prefiro dizer que gostaria que tornassem sua estadia o mais curta possvel.
    - Desde que o tempo permita, partiremos na prxima carruagem - assegurou Mitchell, enlaando Maura pela cintura e arastando-a um pouco para trs, como se pedisse 
para no se envolver na discusso.
    Maura compreendia que ele tentasse resguard-la, mas teve de morder os lbios para no dizer umas verdades para aquele xerife. Afinal, haviam agido em legtima 
defesa, e mais uma vez eram tratados como se fossem causadores de problemas, e repelidos. Na verdade, tinha de reconhecer que acabaria criando mais problemas se 
insistisse em discutir, e os colocaria numa situao desfavorvel. Ela engoliu em seco e preferiu calar, pensando que sua reputao estaria completamente arruinada 
se algum em Saint Louis tornasse conhecimento de fatos to desagradveis.
    Ainda atenta ao desenrolar da conversa entre os homens, Maura comeou a refletir sobre o que acabara de viver. Agora ela sabia que era capaz de cometer atos 
violentos, e a necessidade de defender Mitchell no bastava para explicar a rapidez com que suas boas maneiras e a aura de gentileza desapareceram como fumaa que 
se dissipa no ar. Mesmo acreditando que Mitchell necessitava de uma companheira capaz de tomar as atitudes que o momento exigia, isso no bastava para desanuviar 
sua conscincia.
    O mais difcil era pensar no que sentira ao ver aquele pistoleiro sacar o punhal para matar Mitchell. Apesar de passar o tempo todo repetindo para si que Mitchell 
Callaham era pouco mais que um estranho, seu corao havia disparado em terror ao ver que a vida dele estava ameaada. Era desconfortvel reconhecer, mas o que sentia 
por aquele homem alto e forte era bem mais que mera atrao e paixo sensual.
    Um pensamento de repente se formou em sua mente no momento em que viu atneaarem-no de forma fatal: o temor de que roubassem a vida de Mitchell, antes que ela 
tivesse chance de experimentar a totalidade do desejo que ele despertava em seu corpo, cada vez que a tocava. Ainda que agora estivesse fora de perigo, a possibilidade 
de perd-lo continuava sensibilizando-a profundamente, ainda mais por saber que os riscos no terminavam ali e que outros ataques certamente viriam.
    Perturbada, Maura constatou que uma deciso se formara em seu corao quando viu o punhal apontado para Mitchell Callaham: permitiria que ele se tomasse seu 
amante! Seguramente haveria momentos de arrependimento mais tarde, mas nenhum remorso seria comparvel  culpa e desgraa que sentiria se jamais se rendesse ao desejo 
que compartilhavam um pelo outro. Sem escapatria, teve de assumir a necessidade imperiosa de se entregar totalmente  satisfao de tamanho impulso, que nada mais 
tinha de secreto. Se no o fizesse, carregaria esta frustrao pelo restante de sua vida.
    No ser mais que um caso temporrio. decidiu. No havia possibilidade real de que Mitchell se interessasse mais que alguns poucos dias por uma ruiva magra e 
ingnua corno ela, e seria tolice crer que haveria um futuro para os dois. De qualquer forma, a deciso de no se apaixonar por homem algum continuava nabalvel, 
pois jamais permitiria que sua felicidade dependesse de um homem.
    Com um suspiro profundo, Maura reconheceu que a vida lhe preparara uma armadilha; e embora tentasse proteger o prprio corao, sua alma j estava entregue. 
Agora s lhe restava guardar esta verdade para si e no deixar Mitchell perceber que o que seu corao realmente pedia era mais que efmeros momentos de prazer corporal. 
Tinha de lev-lo a crer que tambm ela seria capaz de se manter inteira quando tudo terminasse e cada um seguisse seu caminho.
    De repente, Maura sentiu uma vontade enorme de retomar ao quarto do hotel, mesmo porque a conversa entre os homens no avanava e o xerife insistia em repetir 
as mesmas perguntas que fizera anteriormente, talvez para se assegurar que Mitchell dizia a verdade.
    - Acho que no h mais o que explicar- disse ela de repente, intrometendo-se na discusso.
    - Estou tentando me assegurar de que os fatos esto suficientemente claros, madame - replicou o xerife.
    - Compreendo, xerife, mas Mitchell acabou de ser atacado com violncia e necessitamos voltar para o hotel para nos certificarmos que no sofreu nada mais srio 
do que arranhes e machucados superficiais.
    - Acredita que vai precisar de muito tempo para se recuperar? - insistiu o xerife, irritando Maura profundamente.
    - No posso dizer, senhor - replicou ela tentando manter o tom educado. - Com tantos agasalhos,  difcil avaliar a extenso dos ferimentos.
    - No me parece estar seriamente machucado - avaliou o xerife com cinismo.
    -  tranqilizador ouvi-lo dizer tais palavras - comentou Maura com cinismo ainda maior.
    - Maura - disse Mitchell em tom contemporizador. - Como no h nenhuma carruagem que possamos tomar amanh, estaremos aqui na cidade caso o xerife queira perguntar 
algo mais.
    - Uma noite de descanso lhe far bem se ainda tiverem de interrog-lo - disse Maura virando-se para Mitchell e buscando ser mais complacente ao notar que o xerife 
comeava a se irritar. Na verdade, o tal xerife teria o poder de ret-los por muito tempo na cidade caso ficasse realmente zangado.
    - Podem voltar para o hotel - concedeu o xerife -, mas aviso que no conseguirei manter estes pistoleiros presos se no houver algum presente para fazer uma 
acusao formal.
    - Sei que tem razo, xerife - concordou Mitchell. - Para mim, seria melhor se estes homens ficassem na priso em vez de ganharem a liberdade e tentarem me atacar 
outra vez. Contudo, ser pior para mim se ficar mais tempo do que o necessrio at a partida da prxima carruagem.
    - Vou mant-los na cadeia tanto quanto possvel.
    - Obrigado, xerife - disse Mitchell agradecido. - Vamos indo, querida? - perguntou, virando-se para Maura. - Nosso jantar deve estar pronto, e tenho de me alimentar 
para recuperar as foras.
    - Sim, vamos, meu bem - respondeu Maura.
    Mitchell tomou a agradecer o xerife pelo auxilio prestado, e em seguida tomou o brao de Maura para conduzi-la de volta ao hotel. E ela j buscava uma soluo 
para o novo problema que precisaria enfrentar agora: como faria para manter a dignidade e ao mesmo tempo deix-lo perceber que tomara a deciso de ser sua amante?
    
    
    Captulo VI
    
    - Por favor, deite-se na cama - pediu Maura assim que entraram no quarto.
    - No imagina h quanto tempo espero que me pea isso, querida - disse Mitchell beijando-a na face.
    Maura meneou a cabea, preferindo nada comentar. O choque oriundo do ataque se dissipara, mas ela seguia perturbada, pois observar Mitchell ser agredido violentamente 
e ao mesmo tempo tomar conscincia de uma onda de revelaes a respeito de si prpria era demais. Colocou gua numa pequena bacia, apanhou um pano para limpar os 
ferimentos, ataduras e um pouco de p de manjerico para o caso de haver cortes profundos. Respirou fundo ao se aproximar de Mitchell, tentando no deixar transparecer 
o nervosismo que aumentava agora que ia toc-lo.
    - No so ferimentos graves - assegurou Mitchell. - S raspes superficiais.
    - Mas a terra do cho tem bactrias, e os machucados devem ser limpos para evitar infeces. - Maura sentou-se na cama para cuidar dos arranhes no rosto de 
Mitchell. -  realmente impressionante que tenham tido o desplante de nos atacar na frente de uma igreja.
    - Pistoleiros so homens rudes e no prestam ateno a regras religiosas.
    Maura meneou a cabea, concordando. Os ferimentos no rosto dele eram apenas superficiais, e mesmo o corte ao lado do olho esquerdo no era profundo; no precisaria 
fazer curativo, bastava se assegurar que estivessem bem limpos.
    Sem perceber, ela comeou a demorar mais tempo que o necessrio para cuidar dos pequenos ferimentos; na verdade, saboreava o prazer de tocar a pele de Mitchell. 
Gostaria de toc-lo ainda mais, mas a inexperincia era um obstculo. Perdida em tais dvidas, surpreendeu-se quando ele a enlaou pela cintura e puxou-a para perto.
    - Maura - sussurrou ele, beijando-a na face com um brilho de desejo nos olhos.
    - Eu sei - disse ela, colocando o pano mido de lado e entrelaando os braos atrs da nuca de Mitchell, num abrao tmido, mas terno. - O que sentimos um pelo 
outro  forte demais para controlar.
    - Tem certeza que sabe o que quer? - Mitchell perguntou, ainda incerto do que ela queria dizer com aquelas palavras, mas j abrindo os botes da parte superior 
do vestido de Maura.
    Ela suspirou, cerrou os olhos por um momento, mas tornou a abri-los e fitou Mitchell.
    - Creio que sim. Voc me deseja, no ?
    - Nem imagina o quanto!
    Maura acariciou os cabelos espessos de Mitchell e, sem pensar, passou a beij-lo com suavidade na face e no ombro. Ele retribuiu as carcias; tudo pareceu mais 
fcil e ela perdeu o medo: a vontade de desvendar os segredos da sensualidade entre um homem e uma mulher guiava agora suas aes.
    Com a parte superior do vestido aberta, Maura de repente lembrou-se da roupa de baixo que usava sob o recatado vestido escuro, um tipo de roupa ntima que sempre 
era alvo das brincadeiras de Deidre, e que no se esperava fosse usada por uma mulher to recatada e modesta como ela. At ento, a escolha de roupas ntimas sexy 
talvez fosse a nica indicao do aspecto libertino de sua personalidade, mas tratava-se de um segredo bem guardado, que somente a prima Deidre conhecia. Agora era 
tarde demais, pois Mitchell a fitava com um olhar de incredulidade.
    - Meu Deus! - disse ele sem conseguir acreditar no que via.
    Maura usava um espartilho azul-escuro adornado com seda negra, de tecido to fino que chegava a ser transparente e revelava o contorno arredondado dos bicos 
dos seios. Ele havia esperado um espartilho de algodo grosso ou flanela, mas o que ela trajava era muito mais sensual e feminino. Os adornos de seda deixavam entrever 
pequeninos vislumbres de pele. Decididamente, no era o tipo de roupa ntima que se esperaria encontrar numa senhorita de uma fazenda do Missouri, e sim numa cortes 
da Costa Leste que se vestisse na ltima moda. Por cima do espartilho havia tambm uma chemise de gaze transparente amarrada por um pequenino lao de cetim vermelho, 
 altura dos seios.
    - Eu o choquei - disse Maura abaixando o olhar com timidez.
    - No estou chocado, apenas surpreso, querida - explicou Mitchell, levantando-se e fazendo-a levantar tambm. Ela postou-se em frente a ele, sem saber como agir, 
e Mitchell terminou de desabotoar o vestido, que deslizou pelo corpo de Maura e caiu a seus ps. Ela deu um passo para o lado, desvencilhando-se da roupa sobre o 
cho, agora vestindo s o delicado e feminino espartilho que cobria a parte superior de seu corpo, a chemise e meias de seda amarradas ao espartilho por ligas de 
cetim.
    - Jamais poderia imaginar, que isto se escondesse atrs de roupas to pudicas - comentou Mitchell surpreso, mas em tom no recriminatrio.
    - Receio que estas roupas ntimas, um tanto escandalosas, sejam uma fraqueza que tenho - confessou Maura enquanto ele se aproximava e comeava a beij-la com 
suavidade no seio.
    - J esto se tornando uma fraqueza para mim tambm - replicou Mitchell, dando um passo para trs para observ-la de longe.
    A chemise transparente terminava onde as meias de seda se prendiam ao espartilho por ligas de cetim tambm escuro. O conjunto era surpreendente, e Mitchell pensou 
que poderia permanecer horas apreciando tanta beleza e sensualidade. O mais interessante era a combinao de tais roupas de baixo e o ar de genuna modstia na face 
de Maura, uma combinao que tornava o todo ainda mais atraente, pois no havia nada de pecaminoso, apenas pura beleza.
    - Onde uma recatada descendente de irlandeses consegue comprar vestimentas como estas no Missouri? - perguntou ele, inclinando parte do corpo e erguendo uma 
perna e depois outra para tirar as botas e as meias.
    J descalo, ele se aproximou, tomou-a pelo brao e a trouxe para a cama. O tom sincero e no cnico de Mitchell ao cham-la de recatada a aliviou, pois receava 
que ele duvidasse de sua inocncia ao descobrir as roupas ntimas que usava. Maura no era ingnua e sabia muito bem o tipo de mulheres que escolhiam tais roupas. 
A loja onde as comprava tinha as mais finas cortess da alta sociedade de Saint Louis entre suas clientes, e a maneira como Mitchell agora a fitava demonstrava por 
que essas damas escolhiam esse tipo de vestimentas.
    - Tenho uma amiga que vende roupas femininas - comeou a explicar Maura. - Na maior parte so vestidos discretos, mas h tambm uma coleo especial, que serve 
s mulheres abastadas da alta sociedade de Saint Louis e s mulheres que... desejam impressionar os homens - completou com rubor no rosto.
    Mitchell tirou a camisa e se deitou a seu lado, vestido s com as calas e pensando que no ia querer transformar os hbitos de Maura; e caso ela no encontrasse 
roupas assim em Montana, iriam encomend-las da tal loja no Missouri. Apesar de Maura demonstrar saber a razo pela qual certas mulheres escolhiam semelhantes roupas 
ntimas, estava claro que no tinha idia de como afetavam os sentidos masculinos, em particular os seus.
    - Voc  linda, minha doce Maura - disse Mitchell, abrindo-lhe a chemise e desfazendo o n do lao que fechava o espartilho.
    - Voc tambm  muito bonito - ela elogiou, sem conseguir evitar os arrepios que os toques dos dedos de Mitchell provocavam. Num impulso, Maura tornou a cruzar 
os braos sobre seu pescoo e puxou sua face para mais perto.
    - Obrigado, querida - murmurou Mitchell antes de beij-la na boca. Entretanto, afastou o rosto pouco depois e a fitou com um olhar srio e compenetrado. - Esta 
 sua ltima chance para nos fazer parar. Gostaria de ser cavalheiro o suficiente e conseguir controlar meus avanos, mas voc me deixa louco. Mas, ainda serei capaz 
de respeitar sua vontade se disser que prefere parar.
    - Voc me deixa louca tambm... - Maura tornou a pux-lo para junto de si, e beijou seus lbios. - At mesmo permiti que me visse usando roupas de baixo! Agora 
 tarde, pois no direi no.
    Mitchell sorriu. Fez com que ela se deitasse e deitou-se sobre ela, e ambos se entregaram a um beijo longo e profundo. Maura o puxava de encontro a si quase 
com desespero, mais feminina do que nunca, e ele se sentia como um adolescente devastado pelo desejo incontrolvel de possu-la totalmente.
    - Talvez eu devesse levantar e lavar o rosto com gua fria? -brincou Mitchell.
    - O qu!? - ela perguntou espantada enquanto Mitchell terminava de abrir seu espartilho. - Est esquecendo de desabotoar minhas ligas e tirar as meias.
    - No se trata de esquecimento, minha querida. Na verdade, no acho boa idia tir-las, pois tenho medo de danific-las. Ademais, no imagina como lhe caem bem.
    - Por isso queria lavar o rosto com gua fria? Para no danificar minhas meias?
    - No, querida. A verdade  que no quero fazer as coisas de forma apressada, e preciso me acalmar um pouco. Afinal,  a sua primeira vez, e sei que devo ser 
calmo e gentil, apesar de ter vontade de ser rpido e furioso.
    - No ignoro que poderei sentir dor mesmo que voc seja gentil e cuidadoso. De qualquer forma, se nosso desejo pede que sejamos rpidos e furiosos, poderemos 
tentar outra vez mais tarde, com calma e delicadeza. No se preocupe.
    - Da maneira como faz meu sangue ferver, no sei se algum dia conseguirei fazer amor com voc calmamente.
    A lucidez abandonou Maura quando Mitchell comeou a beijar-lhe os seios, ela se viu imersa num estado no qual no era possvel pensar com clareza. Uma sucesso 
de sensaes quentes e profundas tomou conta de todo o seu corpo. Ela o abraava com fora, como se jamais quisesse tornar a libert-lo, e Mitchell teve at mesmo 
dificuldade para despir as calas. Quando enfim aquele corpo vigoroso e agora desnudo colou-se ao seu, Maura percebeu a rigidez de sua virilidade masculina. No incio 
teve algum receio, mas esta sensao logo se integrou ao turbilho de desejo que tomava conta dela. Ambos se tocavam como se quisessem se apropriar do corpo um do 
outro, e quando Mitchell a tocou na regio entre as coxas, bem no centro de sua feminilidade, Maura perdeu de vez o controle.
    Mitchell tentava se agarrar ao pouco de lucidez que ainda lhe restava, mas o fogo de Maura em seus braos era mais forte e o incendiava. A nica coisa em que 
conseguia pensar era a sorte que tivera ao encontrar aquela mulher to doce e maravilhosa, pois sempre acreditara ser necessrio haver paixo sensual no casamento. 
Mas a oportunidade que a vida agora lhe proporcionava estava alm de seus sonhos mais fantasiosos.
    Ele a tocava de maneira ntima e profunda, fazendo Maura soltar murmrios contnuos de satisfao, em pouco tempo tambm Mitchell j no podia mais se conter 
e tinha de consumar a entrega total, o momento em que seus corpos se tornariam um s.
    Quando este instante chegou, ele a penetrou com cuidado e delicadeza. Maura sentiu um breve hiato de dor quando algo se rompeu dentro dela, mas no instante seguinte 
seu corpo desfrutava apenas de prazer e desejo outra vez. Sem saber como, nem de onde obtinha tal iniciativa, ela cruzou as pernas por detrs das pernas de Mitchell, 
puxando-o para si enquanto seus braos o enlaavam pelas costas e faziam seu peito masculino pressionar-lhe os seios.
    Ambos se viram envolvidos numa dana sensual e frentica na qual os movimentos rtmicos se ajustavam  perfeio, e, num ltimo lampejo, Maura pensou que caam 
por terra as dvidas e questes que at ento se impusera. Casar ou no casar j no fazia sentido, pois o que compartilhavam estava correto. E se Deus os dotara 
de tais sensaes, elas certamente no eram pecaminosas.
    Os movimentos aumentaram em intensidade e seguiam perfeitamente ajustados, como se os dois fossem amantes experientes que se conhecessem de modo ntimo h muito 
tempo. O estado em que se encontravam no era de lucidez, mas no era de loucura tambm; levava Maura a pensar que atingiam um outro nvel de conscincia e de espiritualidade, 
no qual se fundiam um no outro e no mundo ao redor. Era como se caminhassem juntos por uma estrada, ao fim da qual, brilhava uma luz a cada instante mais intensa. 
Sobreveio ento a integrao mais profunda, at atingirem aquele ponto to brilhante como o cerne do sol; e a luz imensa os cegou, fazendo o tempo parar ou deixar 
de existir.
    Quando afinal seus corpos comearam a relaxar, a percepo dos arredores comeou a voltar lentamente  conscincia de Maura. Ela sorriu, sentindo o peso de Mitchell 
sobre seu corpo e sua presena ainda dentro dela, um pouco orgulhosa de ter sido capaz de t-lo feito sentir o que sentira. Mas o que haver a seguir?
    Sem resposta, Maura passou a acariciar-lhe os cabelos, at que Mitchell ergueu a face e a fitou com um sorriso de terna satisfao. Erguendo mais a cabea, ele 
passou a admirar os seios lindos da companheira, um pouco temeroso de que Maura agora se arrependesse, apesar de estar claro que ela almejara a consumao total 
da paixo tanto quanto ele.
    Se Maura se arrependesse agora, ele no saberia o que dizer e nem como agir. Porm, ela tambm o fitava satisfeita, e o sorriso que exibia nos lbios e nos olhos 
no indicava que sentisse remorsos. Parecia um pouco receosa, mas era compreensvel, pois afinal algo indito acabava de se passar em sua vida e ela necessitava 
se acostumar com o fato de que era uma nova mulher.
    Havia coisas que Mitchell gostaria de dizer, remeter-se ao futuro e revelar que a havia possudo por mais que mera e efmera paixo, mas era cedo demais para 
trazer tais assuntos  tona. Maura precisava de tempo para se acostumar  possibilidade de construir uma vida diferente da que planejara at ento, na qual pretendia 
cultivar as terras que possua com a prima Deidre e ser auto-suficiente. Sim, com o tempo ele poderia demonstrar suas intenes com atos, em vez de palavras, dando 
a ela a certeza de que pretendia mais do que momentos de paixo sexual num hotel longe de casa.
    - Voc est bem, minha querida? - perguntou Mitchell com carinho. - Sente dor? - acrescentou preocupado.
    - Estou bem, no se preocupe - assegurou Maura.
    - Devo dizer que consegue fazer um homem perder a cabea - disse Mitchell, desgrudando seus corpos devagar e deitando ao lado dela.
    - Isto  um elogio?
    - Claro, minha linda.
    Neste momento bateram na porta, e Maura se assustou. Num gesto automtico, ela levantou e foi buscar o roupo, consciente de que ainda usava somente o espartilho, 
agora desabotoado, e as meias presas pelas ligas. Mitchell tambm levantou e vestiu as calas depressa.
    - Deve ser nosso jantar - adivinhou ele. - Demoraram a trazer, mas no tenho a menor inteno de reclamar pelo atraso - acrescentou com um sorriso maroto.
    Confusa, Maura voltou a se deitar com o roupo aberto e se cobriu com o lenol, enquanto Mitchell atendia a porta. O aroma de comida tomou conta do quarto depois 
que ele fechou a porta atrs de si e depositou a enorme bandeja sobre a mesa. Maura tornou a se levantar, e antes que pudesse fechar o roupo, Mitchell se aproximou 
e a impediu de faz-lo com um gesto delicado.
    - Talvez me considere pervertido - comeou ele -, mas se importaria em tirar o roupo e jantar usando somente espartilho e meias?
    - Nunca jantei com um pervertido - replicou Maura surpresa, mas avaliando que j no tinha motivos para se manter modesta ou pudica. De qualquer forma, o que 
compartilhava com Mitchell neste momento, estava longe de ser pecaminoso, e jamais poderia recriminar a si mesma por permitir-se ser o que era.
    - No consigo acreditar que nem lhe dei tempo de tirar a roupa totalmente - replicou Mitchell um pouco encabulado. - Espero que me perdoe por isto. Contudo, 
j que no o fez antes, creio que no se importar de jantar assim? Est mais linda que nunca.
    Maura no conseguiu evitar que seu rosto corasse, mas se rendeu ao poder do elogio sincero dele. E era melhor mudar de assunto.
    - No sei quanto a voc, sr. Callaham, mas eu estou morrendo de fome.
    Mitchell sorriu e a conduziu para a mesa, puxando a cadeira num gesto cavalheiresco para Maura sentar. Ela no se perturbou ao iniciar uma ao to corriqueira 
como compartilhar uma refeio vestida daquela maneira, e nem se sentiu envergonhada ou intimidada com a presena de Mitchell, como se se conhecessem h muito tempo 
e houvessem desenvolvido enorme intimidade.
    O jantar transcorreu ameno e tranqilo, e ambos desfrutaram da mtua companhia. A comida era excelente, o vinho tinto tambm tinha boa qualidade e a temperatura 
quente do quarto tornava a situao aconchegante. L fora, pequeninos flocos de neve comeavam a cair, parecendo flocos de algodo emoldurados pela janela.
    Quando terminaram de comer e Mitchell bebeu o ltimo gole de vinho, ele levantou, deu a volta na mesa e aproximou-se de Maura. Sem notar, ela brindou sua aproximao 
com um sorriso sensual, de mulher adulta que exibia um brilho de vitria feminina.
    - Voc est brincando com fogo, menina - disse Mitchell ajoelhando-se diante de Maura.
    - Est mesmo comeando a ficar um pouco quente aqui dentro - observou ela com um tom de malcia, erguendo o p pequenino e tocando o peito de Mitchell, acariciando 
seus plos espessos num gesto mais do que sensual.
    Sorrindo, ela sorveu o ltimo gole de vinho que restava em sua taa. Ao recolocar a taa sobre a mesa, Mitchell tomou seu p e o fez descer at a regio onde 
sua masculinidade se manifestava outra vez.
    - Quente demais - murmurou Maura, passando a lngua sobre os lbios e tingindo-os com o vermelho do vinho, enquanto acariciava Mitchell com o p em movimentos 
rtmicos e compassados.
    - Por Deus, at mesmo seus ps so perigosos - exclamou Mitchell erguendo-se do cho. Ergueu Maura em seu colo, e carregou-a de volta para a cama.
    Maura sorriu; sabia que j no havia mais como voltar atrs, agora que tinha dado o primeiro passo. De qualquer maneira, tambm no desejava faz-lo. Na verdade, 
uma certa tristeza comeou lentamente a manchar a felicidade que estava sentindo, pois de repente pensou que em breve chegariam a Paradise e seus dias de idlio 
com Mitchell terminariam. Contudo, a tristeza a fez tomar uma deciso: no desperdiaria os momentos que poderia desfrutar nos braos de Mitchell Callaham, pois 
eram preciosos e em breve acabariam. De sbito, uma certeza tomou forma em seu corao: a de que jamais teria as mesmas sensaes nos braos de outro homem. Estar 
com Mitchell era viver um sonho, e ela se entregaria de corpo e alma a este sonho at que fosse obrigada a despertar.
    
    
    Captulo VII
    
    Maura sentiu um arrepio de medo percorrer seu corpo quando deixou a loja e no encontrou Mitchell na rua. Ele sara para fumar um cigarro enquanto ela comprava 
presentes de Natal para Deidre, mas no havia sinal dele. Apertando os embrulhos contra o peito, Maura se perguntou o que fazer: tornar a entrar na loja, voltar 
para o hotel, esperar onde estava ou sair  sua procura? Mitchell fazia questo de acompanh-la todo o tempo para garantir sua segurana, e desaparecer de repente 
no fazia sentido. Talvez o melhor fosse ir procur-lo, mas a certeza de que Mitchell no ia gostar disso a fez permanecer onde estava.
    Havia uma semana que se viam obrigados a permanecer no vilarejo por causa do mau tempo e de carruagens lotadas, e o xerife os encarava com uma hostilidade cada 
vez maior, quando acontecia de se cruzarem na rua. Ainda que no se arrependesse das tantas horas desfrutadas nos braos de Mitchell, Maura tinha conscincia que 
era arriscado permanecer muito tempo no mesmo local, e o nico consolo era pensar que a neve intensa e estradas congeladas e escorregadias tambm atrasariam seus 
perseguidores.
    Tardavam demais para chegar em Paradise, quase o mesmo tempo que os antigos pioneiros e desbravadores do Oeste levavam para percorrer de um Estado a outro.
    Apesar do enorme progresso dos ltimos anos e das novas estradas, carruagens e trens, ainda era difcil se deslocar de um povoado a outro. Bastava o tempo piorar 
e os meios de transporte se interrompiam ou atrasavam, com a conseqncia de que estavam sempre lotados, tornando quase que impossvel encontrar passagens. Apesar 
dos momentos agradveis que desfrutavam na hospedaria, tanto ela quanto Mitchell, sabiam que tinham data certa para chegar a Paradise e enfrentar os Martin.
    - Onde ser que ele est? - murmurou Maura para si mesma, em tom de preocupao, olhando em volta.
    Sem saber o que fazer, decidiu caminhar at o final do prdio da loja, e este foi seu grande erro. No havia movimento na rua por causa da intensa neve que caa, 
e a loja terminava na esquina com uma viela. Ao atingir a esquina, e quando se preparava para dar meia volta e retornar, uma certa mo suja tampou sua boca e um 
brao forte a agarrou pela cintura, puxando-a para dentro do beco. Maura tentou lutar para se desvencilhar, principalmente ao notar Mitchell cado, desacordado, 
sobre a terra congelada da viela. No entanto, no conseguiu escapar.
    - Fique quieta, sua prostituta - disse o homem que a imobilizava. - Seu homem no est morto, apenas dormindo.
    - Tem certeza que ele no est com os documentos? - perguntou outra voz masculina por trs deles.
    - Certeza absoluta, Mike, mas vai nos entregar as tais escrituras em breve, no se preocupe.
    - Tenho pena de deixar nossos companheiros na priso.
    - No ficaro presos por muito tempo, pois este Callaham no estar por aqui para fazer a denncia quando chegar a hora da audincia com o juiz. E no se pode 
manter ningum preso se no h quem faa uma denncia.
    Maura continuava se debatendo, e mesmo com a boca tapada, era capaz de emitir sons que podiam atrair a ateno de algum que passasse pela rua principal. Por 
fim, um dos pistoleiros tomou uma deciso.
    - Vamos levar essa maldita prostituta embora antes que acabe atraindo a ateno.
    - Estou pronto, Mike.
    Maura tentou gritar com todas as foras no momento em que o bandido lhe soltou a boca, mas antes de poder inspirar o ar necessrio para faz-lo, o homem j lhe 
amarrava uma mordaa suja na boca, impedindo-a de emitir qualquer espcie de som. O outro pistoleiro, que atendiapelo nome de Roy, foi buscar os dois cavalos que 
esperavam poucos metros adiante, e ao voltar Maura j tinha as mos atadas com uma corda. Com um gesto bruto, Roy a agarrou e a jogou em cima da sela do cavalo, 
montando atrs dela em seguida e puxando-a de encontro a si, enquanto tomava as rdeas com a outra mo. Mike j montara no outro animal, e no instante seguinte partiam 
a galope pela sada dos fundos da viela, onde haveria ainda menos gente que a pudesse ajudar.
    Muito amedrontada e percebendo que o choque a faria desmaiar, Maura pediu a Deus que Mitchell s estivesse de fato inconsciente e que nada de pior houvesse acontecido 
com ele.
    
    Mitchell estava zonzo, e sentia um frio imenso por todo o seu corpo. Sentou-se no cho e esperou algum tempo antes de se erguer, mas, estava zonzo demais, e 
teve de se apoiar na parede para no cair. Seu estmago doa e a cabea latejava com tanta intensidade que produzia vontade de vomitar. Com a vista turva, no reconheceu 
o lugar onde se encontrava, mas logo concluiu que fora atacado e trazido at ali.
    Respirou fundo e, ainda cambaleante, comeou a caminhar em direo ao que parecia ser a rua principal no final do beco. No entanto, a viso de vrios embrulhos 
cados a poucos metros da entrada da loja o fez compreender o que acontecera: haviam capturado Maura!
    A adrenalina comeou a correr em suas veias quando Mitchell se inclinou para recolher os embrulhos, e neste momento o xerife se aproximou.
    - Com os diabos! Que passou desta vez?
    - O que acha? Algum me acertou na cabea - respondeu Mitchell com ferocidade e sem capacidade de ser diplomtico no momento. Ainda sem fitar o xerife, ele notou 
um papel atado a um dos embrulhos, certamente uma mensagem deixada pelos pistoleiros. - Aqueles trs ainda esto presos?
    - Sim, mas terei de solt-los amanh. At agora consegui mant-los na cadeia sob a acusao de que perturbavam a ordem pblica, mas no posso prend-los mais 
tempo, a menos que voc faa uma denncia formal.
    - Espere um pouco - disse Mitchell enquanto abria o papel para ler a mensagem.
    "Capturamos sua mulher. Se quiser t-la de volta com vida, traga as escrituras para o Barraco dos Carneiros na estrada da sada leste da cidade quando a lua 
surgir esta noite."
    - Sabe onde fica o Barraco dos Carneiros, xerife? - perguntou Mitchell enquanto guardava a mensagem no bolso.
    -  um estbulo velho que ningum usa h muitos anos, na estrada que sai pelo lado leste. Por que pergunta?
    - Porque foi para l que levaram Maura.
    - Sua mulher? Aquela ruiva desaforada?
    - Ela mesma - replicou Mitchell, encarando o xerife com tamanho dio nos olhos que fez o agente dar um passo para trs.
    - Mais problemas! Afinal, o que  que voc tem que eles querem tanto?
    - Terras e uma mina que produz uma enorme quantidade de minrio. H gente que deseja ter nossas propriedades, mas no queremos vend-las; por isso nos atacam, 
para nos fazer perder a posse. Puro roubo! - explicou Mitchell finalmente. Depois de respirar fundo e olhar a sua volta, ele tornou a fitar o xerife. - Sabe onde 
posso comprar cavalos e selas? - indagou, j caminhando nhando na direo do hotel. O xerife o seguiu.
    - Resolveu partir de uma vez e levar seus problemas consigo, sr. Callaham?
    Mitchell teve de fazer fora para continuar caminhando em vez de parar e acertar um soco naquele xerife impertinente. Mas, apenas ia piorar as coisas ainda mais 
se o fizesse.
    - Sim, vou partir, xerife, pois tambm no vejo a hora de deixar este vilarejo maldito. Vou buscar minha mulher e seguiremos para Montana. E quanto aos cavalos?
    - Procure Ed Jenko no estbulo no fim da rua. Ele tem bons animais e no cobra caro.
    - timo. Talvez amanh voc queira passar pelo Barraco dos Carneiros para recolher alguns corpos.
    Mitchell se virou e entrou no hotel antes que o xerife pudesse retrucar sua recomendao. Na verdade, aquele xerife comeava a se mostrar um covarde; se no 
o fosse, teria tomado a iniciativa de armar uma patrulha para ir ao encalo dos pistoleiros e ajud-lo a salvar Maura. Contudo, agora s podia esperar que o xerife 
realmente aparecesse para recolher os corpos no dia seguinte, e que fossem os cadveres dos bandidos, e no o dele e o de Maura.
    
    Mitchell jogou os presentes sobre a cama e foi lavar o rosto e limpar os novos arranhes que os bandidos haviam feito. Em seguida, saiu para encontrar Ed Jenko, 
dono do estbulo, um homem pequeno e de aparncia astuta que no deixou de se admirar com o ar de fria contida de Mitchell, a ponto de perguntar o que se passava. 
Mitchell ento, comprou dois cavalos para ele e Maura cavalgarem, e um terceiro animal para transportar provises e bagagem. Depois de pagar e avisar que viria buscar 
as montarias dentro de uma hora, ele foi comprar a comida de que necessitavam, agasalhos quentes e cobertores. Com pesar, comprou tambm roupas de baixo de l para 
Maura, para ela enfrentar o frio cavalgando.
    Ao arrumar a bagagem de Maura, Mitchell reconheceu que talvez, pela primeira vez na vida, sentia medo. No tinha idia do que ia fazer para salvar Maura. Estava 
em territrio desconhecido, no sabia quantos homens a retinham e nem tinha as escrituras consigo, ainda que fosse tolice acreditar que poderia troc-las por sua 
liberdade e a de Maura. Na verdade, nem sabia se ainda estava viva; e se estivesse, no queria pensar no que aqueles pistoleiros malditos podiam estar fazendo com 
ela.
    Com desgosto, Mitchell tentou pensar em outras coisas, mas sem conseguir. Jamais desistiria dela caso tivesse sido violentada por outros homens, e os perseguiria 
at matar quem tivesse tocado a mulher a quem ele amava. A questo no era o fato de que Maura lhe pertencia, mas sim a certeza de que se ela fosse violentada perderia 
a capacidade de desfrutar o sexo e a sensualidade que acabava de descobrir.
    O sol comeava a se esconder quando Mitchell deixou o pequeno vilarejo. No fim da rua, percebeu que o xerife o fitava de longe, e no conseguiu deixar de refletir 
que os cidados daquele lugar no estavam protegidos sob a guarda daquele agente da lei. Ao passar na frente da igreja, pensou em entrar e rezar pedindo proteo, 
mas decidiu seguir caminho. Necessitava de sorte hoje, caso contrrio terminaria fornecendo trs cavalos excelentes e provises para os assassinos dele e de Maura.
    
    Maura abriu os olhos devagar ao voltar a si, e imediatamente se lembrou do que ocorrera. Tentou se erguer e sentar, mas no era possvel, pois estava amarrada 
com cordas a uma cama de madeira sem colcho. Um pano imundo cobria sua boca, impedindo-a de emitir qualquer som, mas podia virar a cabea e observar o que acontecia 
ao seu redor.
    O fato de ainda estar vestida a aliviou, pois comprovava que aqueles homens brutos no haviam tirado proveito de sua inconscincia. Ao girar a cabea, percebeu 
dois pistoleiros sentados ao redor de uma mesa a alguns metros de distncia e jogando cartas. Sobre a mesa, uma garrafa de usque j consumida pela metade. Um aroma 
de lcool e imundcie inundava o esconderijo. Lembrando-se do que ocorrera na viela quando fora atacada, teve a esperana de que aqueles dois fossem os tais Roy 
e Mike, como os ouvira chamar um ao outro. Caso no fossem, haveria ento mais pistoleiros, tornando maior a ameaa para ela e Mitchell.
    Maura respirou fundo, tentando se acalmar; e apesar da dor que sentia no peito pela maneira brutal como a haviam tratado, estava certa de no estar machucada. 
Na verdade, necessitava poder se movimentar com rapidez quando Mitchell a viesse salvar daqueles bandidos malditos contratados pelos Martin.
    Algo em seu corao lhe dizia que Mitchell viria salv-la. Era bom confiar no amante desta forma. Por outro lado, isso a preocupava, pois no queria que um lao 
maior se estabelecesse entre os dois, um lao alm do caso que agora viviam. Se tal lao existisse, Mitchell poderia facilmente persuadi-la a se render ao amor, 
e isso no fazia parte de seus planos, pois no necessitava outra vez lembrar como a me vivera e morrera infeliz por se render ao amor que nutria pelo marido.
    Mas, agora no era hora de pensar em tais coisas; o importante era elaborar um plano para se colocar em situao mais favorvel. Teria de fazer aqueles bandidos 
idiotas a desamarrarem para que tivesse mais liberdade de ao quando Mitchell chegasse. Sem pensar duas vezes, Maura comeou a se debater sobre o leito de madeira 
e produzir os sons que conseguia, apesar do pano amarrado em sua boca. Afinal, a estratgia surtiu efeito: os dois homens se viraram, e um deles resolveu conferir 
o que estava se passando. Ao se aproximar, ele a fitou um instante e ento resolveu tirar a mordaa de sua boca.
    - Quero gua - disse Maura em tom imperativo.
    - gua? Vai sentir muito mais sede quando Roy e eu a esquentarmos.
    - Se tivesse um pouco de dignidade, se asseguraria de dar um mnimo de conforto a quem mantm prisioneiro - prosseguiu Maura.
    - Ela pensa que sou um cavalheiro - disse Mike dirigindo-se a Roy, e soltando uma gargalhada sinistra. - Alm de magrinha, esta sem-vergonha  idiota.
    - Cale a boca, imbecil - replicou Roy, levantando da cadeira e se aproximando. - Quer mesmo tomar gua? - perguntou para Maura, fitando-a com cabelos oleosos 
e sujos que lhe caam sobre a testa.
    - Sim, estou com muita sede.
    Roy se afastou e foi encher uma caneca com gua de um barril encostado a uma das paredes do barraco. Em seguida, aproximou-se de Maura e ofereceu-lhe a caneca.
    Como pode ser to imbecil a ponto de no perceber que necessito ter as mos livres para segurar a caneca?
    - Ter de soltar minhas mos para que eu possa beber, senhor - disse ela, tentando no demonstrar o desprezo que nutria por aquele idiota, que parecia ter a 
inteligncia de uma galinha.
    Roy depositou a caneca ao lado de Maura, inclinou-se e comeou a soltar as cordas que atavam suas mos  cama de madeira.
    - No sei se deve solt-la, Roy - comentou Mike, que continuava por perto. - Apesar de magrinha, Ned contou que ela quase rachou sua cabea com uma p.
    - Mas ela no tem p nenhuma agora, no  mesmo? E se tivesse rachado a cabea de Ned, o nico problema seria suportar o fedor do que ele tem dentro do crnio.
    No foi surpresa para Maura saber que aqueles dois pistoleiros eram comparsas dos outros que haviam atacado Mitchell na frente da igreja. O mais interessante 
era notar a maneira como Mike se referia ao companheiro, dando a entender que o considerava menos inteligente. Fora ele tambm quem tomara a deciso de trazer a 
gua, e talvez fosse o lder do bando. Maura considerou a possibilidade de usar tal informao, e decidiu que tentaria ganhar um pouco da confiana daquele bandido.
    - Obrigada, senhor - disse ela quando Roy a soltou e tomou a oferecer a caneca com gua. Antes de aceitar, ainda esfregou os pulsos um momento para aliviar a 
dor que a presso das cordas haviam causado.
    - J  o bastante - decidiu Roy, tirando a caneca das mos de Maura com um gesto brusco assim que ela sorveu parte da nfima quantidade de gua que lhe fora 
oferecida. - No trouxemos muita gua, pois no pretendemos ficar aqui muito tempo.
    - No vo me deixar presa nesta cama sozinha, no ? - perguntou Maura, suspeitando que fazer o papel de mulher indefesa a ajudaria a enganar aqueles tolos.
    - Seu homem vir busc-la em breve.
    - Tem certeza? Ele estava inconsciente. E como saber onde estou? - continuou Maura, fingindo inocncia.
    - Deixamos uma mensagem dizendo que deve trazer os documentos se quiser recuper-la com vida.
    - Documentos? Que documentos? - perguntou Maura com o ar mais santo do mundo.
    Era difcil fazer o papel de mulher idiota e ao mesmo tempo tentar ludibriar os pistoleiros. Na verdade, a situao agora se complicava mais, pois no duvidava 
que eles pretendiam mat-los, e Mitchell ia terminar arriscando a vida por causa de escrituras falsas que no tinham o valor oficial dos documentos verdadeiros. 
Ao mesmo tempo, no podia revelar isso para os facnoras, pois os Martin concentrariam a perseguio em Deidre. E no fazia sentido arriscar a vida da prima para 
salvar a prpria pele.
    Perturbada, Maura pensou que ia odiar a si prpria se manter a segurana da prima custasse a vida de Mitchell. Da mesma forma, entregar os documentos ou contar 
a verdade para os pistoleiros tambm no garantia que poupassem a ela e Mitchell.
    - Seu homem guarda documentos que nosso patro quer ter. Ele nos entrega os documentos e libertamos vocs.
    - Ento tenho certeza que ele vai trazer os papis, e no h necessidade de me manter amarrada. Esperarei quieta at Mitchell chegar.
    - Melhor no dar ouvidos a esta ,alada. - avisou Mike.
    - Cale a boca, idiota! Por acaso pensa que corremos perigo se soltarmos esta ruiva franzina?
    Maura lutou para no demonstrar nos olhos a sensao de triunfo quando Roy desatou seus tornozelos, deixando-a livre. Mesmo que no pudesse se livrar daquela 
situao sozinha, ao menos no estaria deitada e amarrada quando Mitchell chegasse. Ela esfregou os tornozelos, vermelhos pela presso das cordas, enquanto observava 
Roy voltar a sentar na cadeira e pegar o baralho. Em seguida, avaliou a distncia entre ela e a porta, mas concluiu que no teria chance de levantar, correr e destrancar 
a porta antes que voltassem a agarr-la. De qualquer forma, sua situao era um pouco melhor agora.
    - O que esto jogando? - perguntou, com uma ingnua curiosidade que no sentia.
    - Pquer - replicou Roy embaralhando as cartas.
    - Adoro este jogo! Posso jogar tambm?
    A maneira arrogante e superior como Roy a fitou ao ouvir seu pedido a fez concluir que sua artimanha surtia efeito, pois ele no acreditava que uma mulher fosse 
oponente para ele nas cartas.
    - Sabe jogar pquer? - perguntou Roy com desdm.
    - O que est dizendo? Ela  nossa prisioneira, e no devemos ser amigveis com prisioneiros.
    Mike na verdade parece ser mais inteligente que Roy, decidiu Maura, e por isso mais perigoso que o outro. Afinal de contas, Roy parecia comear a se render  
pretensa ingenuidade que ela exibia, mas Mike preferia mant-la amarrada enquanto esperavam Mitchell chegar com os documentos, para ento provavelmente matar os 
dois e desaparecer.
    - No vai atrapalhar em nada deix-la sentar aqui conosco e jogar uma partida ou duas - resolveu Roy. - Traga outra cadeira.
    - Mas o homem dela vai chegar daqui a pouco - argumentou Mike, apesar de levantar e cumprir a ordem.
    - Eu disse que viesse quando a lua subir. Alm do mais, o tal Callaham no tentar nada enquanto sua mulher estiver aqui dentro.
    Maura sentou-se na cadeira, fitando Mike de vis. Aquele pistoleiro no tinha certeza de que Mitchell no fosse tentar algo, mas no era valente o suficiente 
para questionar as ordens de Roy. Ainda assim, seria necessrio tornar cuidado com ele e vigi-lo sem que percebesse, pois parecia mais difcil de enganar.
    As cartas foram distribudas, e Maura se perguntou quanto deveria exibir sua experincia naquele jogo. Movimentando devagar a perna, sentiu os papis no bolso 
secreto sob a saia, e ponderou que eventualmente poderia tentar compr-los entregando os documentos. Afinal, eram falsificaes bem-feitas, e seria possvel engan-los.
    Na verdade, talvez nem os Martin fossem capazes de distinguir entre os documentos verdadeiros e as cpias que ela trazia; e mesmo Maura s sabia que eram falsificaes 
porque ela prpria as mandara fazer.
    Maura respirou fundo e abriu as cartas diante de si. Por mais que os julgasse idiotas, sabia que eram assassinos que no hesitariam em acabar com ela e com Mitchell, 
matando-os a sangue frio assim que fosse conveniente. Bastava fitar aqueles olhos sombrios e sem alma para ter certeza disso.
    Esta viagem me est ensinando a realidade do mundo, avaliou enquanto mostrava o jogo de cartas que tinha; e para fingir inabilidade, no pedira para trocar. 
Pistoleiros, assassinos profissionais, ataques no trem e na cidade e mentiras no pquer agora. Talvez tivesse sido melhor ter permanecido no aconchego e segurana 
da pequena fazenda que possuam em Saint Louis.
    Na verdade, no teria sido melhor, pois alm de no cumprir o desejo de tio Patrick, jamais teria encontrado o atraente Mitchell Callaham, um homem com o qual 
aprendera a ser uma mulher adulta e a experimentar uma sexualidade saudvel e satisfatria. Provavelmente esta relao com aquele vigoroso descendente de irlandeses 
a deixaria decorao partido no final, mas mesmo assim teria valido a pena, e no haveria motivos para se arrepender.
    Agastado, Mike comentou que o jogo dela era muito inferior ao deles. Maura suspirou, pensando que seria melhor se Mitchell chegasse logo, pois no teria chance 
de continuar enganando-os por muito tempo fingindo-se de tola e ingnua. Afinal, seu autocontrole tinha um limite, e em situao to tensa corria o risco de dizer 
ou fazer coisas que colocassem tudo a perder.
    
    
    Captulo VIII
    
    - Ela est jogando cartas! - murmurou Mitchell, estupefato, ao espiar por uma pequenina janela e averiguar o que ocorria dentro do velho estbulo.
    Saiu com rapidez da janela, e encostou-se na parede de madeira. Maura devia ter algum plano em mente ao fazer isso, mas o que seria? At seria de esperar que 
ela conseguisse manter a calma e estivesse pronta para agir quando ele atacasse, mas encontr-la jogando baralho com os raptores era demais.
    Concluiu que aquilo poderia ser til, pois Maura distraa os pistoleiros, o que lhe daria a vantagem da surpresa. Eram somente dois homens e no seria difcil 
venc-los. Porm, havia um problema. Maura estava prxima demais deles.
    Mitchell se afastou do barraco, e as sombras o envolveram. A lua no tardaria a surgir, e ento os bandidos se aprontariam para esper-lo. Na verdade, era incrvel 
que no se preocupassem em montar guarda e ver se algum se aproximava, o que indicava que eram tolos o bastante para acreditar que ele faria exatamente o que esperavam: 
entregar as escrituras em troca da liberdade de Maura.
    No obstante, era necessrio tentar se comunicar com Maura e faz-la saber que ele se encontrava ali fora. Retornou  janela e fitou o interior do barraco. 
Algum tempo passou antes que ela finalmente erguesse o olhar e notasse sua presena, mas, astuta, ela manteve-se impassvel, sem demonstrar que agora sabia que Mitchell 
chegara.
    Maura no podia olhar para a janela por muito tempo, e esperou at os bandidos se concentrarem no jogo para mais uma vez erguer o olhar. Fazendo um sinal para 
que ela esperasse, Mitchell tornou a abaixar e sumiu de vista.
    Maura fitou as cartas, tentando no demonstrar nervosismo. Tinha certeza que vira Mitchell l fora tentando comunicar-se com ela, apesar do escuro que o envolvia. 
Evitou olhar para a janela, pois os bandidos poderiam perceber algo estranho. Apesar de estpidos, eram homens acostumados a armar ciladas e sabiam farejar perigo.
    Mike reclamou que Roy estava bebendo mais usque que a parte que lhe cabia, e os dois comearam a discutir , lmediatamente Maura aproveitou a chance para erguer 
o olhar, e viu Mitchell na janela outra vez. Sem perder tempo, ele fez vrios sinais com a mo, tentando indicar que ia atacar dentro de cinco minutos e que ela 
deveria se afastar. No era possvel ter certeza, mas Maura pareceu menear a cabea indicando que entendera a mensagem. Mitchell abaixou-se e retirou o relgio do 
bolso da cala para marcar o tempo, agradecendo a tnue luz que saa pela janela e iluminava os ponteiros. Aqueles seriam os cinco minutos mais longos de sua vida!
    A discusso entre os bandidos agora amainara, e os dois voltaram a jogar. Maura mantinha o olhar fixo nas cartas  sua frente, tentando compreender a mensagem 
de Mitchell. Ele fizera duas vezes o sinal de disparar um revlver, e ern seguida apontara para a porta. Aquilo devia significar que pretendia atacar arrombando 
a porta. Depois, gesticulou como se pedisse a ela que se afastasse. Provavelmente tentava indicar que ela devia sair da linha de tiro quando ele entrasse disparando. 
FinalmentE. Mitchell mostrara os cinco dedos da mo abertos, e isto era mais difcil de compreender. Maura respirou fundo, esforando-se para decifrar o significado 
enigmtico dos cinco dedos abertos. De repente, pensou no pequenino relgio que trazia atado ao pescoo com uma corrente, e compreendeu que Mitchell se referia ao 
momento em que ia entrar. Claro, s podia ser isto: ele arrombaria a porta dentro de cinco minutos! E apesar de no poder fitar o relgio que trazia no pescoo, 
pelo menos entre trs e quatro minutos j haviam passado enquanto tentava decifrar a mensagem.
    O ataque estava prximo, e havia uma grande chance de os dois homens morrerem baleados na sua frente. Ela vira algo do gnero quando o incidente do trem ocorreu, 
mas os pistoleiros haviam tombado a distncia. Desta vez observaria tudo acontecer a seu lado, e tinha de estar preparada para a violncia da situao. Seria timo 
se os dois bandidos se rendessem e erguessem os braos quando Mitchell irrompesse pela porta, mas uma coisa assim no aconteceria. No bastasse tudo, ainda tinha 
de considerar que Mitchell enfrentaria dois homens armados sozinho, seria um revlver contra dois.
    Os segundos voavam e ela necessitava encontrar uma maneira de ajudar Mitchell, que estava em posio desfavorvel. Suando frio, comeou a imaginar o que poderia 
fazer e subitamente lembrou-se do que ocorrera quando fora atacada logo antes de conhecer Mitchell: golpeara um agressor em um ponto sensvel do pescoo, fazendo 
o brutamontes engasgar e perder o flego! Sim, tentaria o mesmo agora! Esperou ento os cinco minutos se completarem e, sem pensar duas vezes, fechou a mo direita 
com fora, ergueu-se e deu um soco no pomo-de-ado de Mike.
    Mais uma vez ela se surpreendeu com a eficincia do golpe. Mike comeou a sufocar de tal forma que acabou caindo da cadeira no esforo para tomar flego. Tomado 
de surpresa, Roy viu o companheiro ir ao cho sem compreender o que acontecia. Maura aproveitou aquele instante de surpresa para afastar-se da mesa correndo, e pediu 
a Deus que Mitchell entrasse.
    Mesmo que o esperasse, ela no deixou de se surpreender quando a porta se escancarou com um pontap violento e Mitchell Callaham apareceu. Sem perder tempo, 
Maura correu em direo  cama onde estivera presa, e o primeiro tiro soou. Sem saber quem havia atirado, ela s podia ter a esperana de que Mitchell houvesse atirado 
antes de Roy conseguir retirar o revlver. Quando afinal conseguiu virar-se para ver o que sucedia, viu Roy cado sobre a mesa, e seu sangue j manchava as cartas 
espalhadas sobre a madeira. Mike, cado no cho, ainda tentava recuperar a respirao, e no conseguia sacar a arma.
    Maura virou-se para Mitchell, que agora tambm a fitava, e sem esperar que ele viesse em sua direo, cruzou o estbulo e correu para ele. A viso de Roy cado 
sobre a mesa manchada de sangue era terrvel, mas os dois pistoleiros jamais esconderam a inteno de mat-los: no era possvel ter compaixo em tal situao.
    - Voc est bem, querida? - perguntou Mitchell ansioso, assim que ela se aproximou, puxando-a para trs de si de maneira a proteg-la com o prprio corpo.
    - Estou bem, s alguns arranhes, mas nada grave.
    - Eles no tentaram... - comeou Mitchell sem ter coragem de completar o que queria dizer.
    - Ainda no haviam feito nada, mas sei que pretendiam faz-lo mais tarde. Ser que devo me sentir insultada por no terem tentado antes? - ironizou, tentando 
esboar um sorriso. - Roy, o pistoleiro morto sobre a mesa, parecia ter a inteno de me atacar primeiro.
    Mitchell tomou a se virar e observou Mike cado no cho, ainda tentando recuperar a respirao. A viso daquele brutamontes sem ao era um pouco pattica, mas 
estava claro que no representava perigo no momento.
    - Por que  que toda vez que apareo para salv-la encontro um homem sufocando no cho? - perguntou Mitchell com bom humor, e mais relaxado ao ver que estavam 
fora de perigo.
    - J  a segunda vez que acerto um bandido no pomo-de-ado. Na primeira vez foi sem querer, mas o golpe se mostrou to eficaz que resolvi repetir a dose agora. 
E deu certo!
    - Pelo visto,  melhor acertar um homem nessa regio do corpo do que em outras partes. Qualquer homem se prepararia para ser atacado... em suas partes mais vulnerveis, 
e anteciparia o golpe na tentativa de se defender, mas jamais pensaria em proteger o pomo-de-ado! - completou Mitchell, piscando.
    Parecia muito estranho conversar to alegremente enquanto um homem jazia morto sobre a mesa e outro sufocava no cho, mas talvez o fato de necessitarem dar vazo 
ao medo e ao temor os fizesse agir assim.
    Mas, um sexto sentido alertou Maura, e ela se virou para Mike. Ainda no totalmente recuperado, o facnora j no parecia fora de combate, e agora introduzia 
a mo embaixo da cala, acima da bota, e num instante tinha uma arma nas mos e apontava para o corao de MitchelL Com um grito, Maura empurrou o amante para longe, 
e uma pontada lacerante como fogo queimou seu brao de raspo. Zonza, ela tentou sair da linha de fogo, dando um passo para o lado enquanto ouvia novos disparos. 
Quando tudo pareceu acabar, ela se virou, rezando para que Mitchell houvesse triunfado outra vez.
    E mais uma vez Deus atendeu s suas preces. Mike estava cado imvel no cho, a face contra o solo, e Mitchell caminhava em direo ao pistoleiro para se certificar 
de que ele estava definitivamente fora de combate. Empurrando o corpo inerte com a bota, ele tornou a vir-lo para cima. Ambos os olhos de Mike estavam abertos, 
mas a expresso em seu rosto e o sangue que manchava a camisa na altura do corao no deixavam dvidas, tambm estava morto!
    Neste momento, Mitchell olhou para ela e se assustou.
    - Maura! Voc foi ferida! - gritou em desespero ao notar que o tecido negro do vestido no escondia uma mancha de sangue na altura do brao.
    - No se preocupe - ela apressou-se a dizer quando Mitchell correu a seu encontro. - Fui atingida, mas foi apenas de raspo e no  nada grave. Tem certeza que 
os dois esto mortos?
    - Certeza absoluta. Est segura que o ferimento em seu brao no  grave?
    Sem esperar pela resposta, Mitchell comeou a desabotoar os botes do punho da manga de Maura, e no descansou at erguer o tecido e observar a extenso do ferimento 
em seu antebrao. Felizmente, era visvel que se tratava de um leve raspo e no havia razo para maiores preocupaes. Mesmo assim, ele retirou o leno que trazia 
no bolso e o amarrou no brao de Maura, cuidando do ferimento. Era o mximo que podia fazer no momento. Ao terminar, ele a fitou nos olhos, e apesar de parecer mais 
relaxado, ainda era visvel seu nervosismo.
    - No se preocupe, garanto que estou bem - Maura reafirmou. Porm, no pde deixar de sentir satisfao ao notar que Mitchell se preocupava com ela a ponto de 
ficar transtornado. Seria tal preocupao sinal de amor?
    - Por que no liquidei o outro pistoleiro logo, em vez de ficar conversando? - lamentou ele com expresso de culpa. - Como fui tolo! A alegria em v-Ia segura 
a meu lado me distraiu e no terminei de uma vez o que necessitava fazer. Perdoe-me, minha querida - completou, puxando Maura para junto de si e abraando-a com 
fora. Ela tambm o abraou forte e afundou o rosto em seu peito.
    Ao abra-la, Mitchell compreendeu que Maura Kenney significava muito para ele. Jamais se perdoaria se no a tivesse libertado do perigo. Mas felizmente, tudo 
terminara bem, e agora podia seguir lutando mais de que nunca para conduzi-Ia rumo ao futuro que almejava para os dois. Era maravilhoso saber que ela estava em seus 
braos e que poderia lev-la a Paradise, onde teria tempo de demonstrar a intensidade de seus sentimentos e a sinceridade de suas intenes.
    A energia que os conectava era intensa e profunda. Entretanto, a vida continuava, e mesmo que o tempo houvesse parado um instante, uma outra voz se intrometeu 
na conscincia de Maura, dizendo que talvez estivesse indo longe demais em suas fantasias e comeasse a perder o senso da realidade. Afinal, Mitchell tambm acabava 
de viver momentos de violncia e baleara dois homens, ainda que fossem pistoleiros assassinos que no titubeariam em extermin-los para desempenhar a contento a 
tarefa encomendada pelos Martin. Os ltimos acontecimentos haviam sido trgicos, e melhor seria no tirar concluses de momentos dominados por emoes to fortes. 
O que realmente sabia era o que os anos anteriores lhe haviam ensinado, as certezas que construra ao longo da vida e no poderia jogar por terra agora.
    Embora a continuasse abraando, Mitchell se afastou alguns centmetros e seus braos diminuram a presso em torno de Maura. Ele considerou que em breve necessitaria 
ter uma conversa clara com ela e, ainda que fosse difcil, teria de explicitar o que sentia e desejava. Mas este no era o momento apropriado para faz-lo, dentro 
de um estbulo abandonado gelado e perdido no meio do campo selvagem e com dois cadveres a poucos metros de distncia. Para piorar as coisas e confundi-lo ainda 
mais, Maura comeou a acariciar-lhe com suavidade os cabelos, despertando nele profundas emoes.
    - Pare de me afagar a cabea - disse Mitchell, afastando-se um pouco mais.
    - Estou apenas tentando consol-lo - replicou Maura sem jeito.
    - Est agindo como uma me, e no  o que quero de voc.
    Confusa, Maura desfez o abrao e se afastou, sem conseguir entender bem o que Mitchell pretendia dizer. A mesma voz interior que a aconselhava a no sonhar nem 
se entregar a tolas fantasias, agora assegurava que Mitchell no queria o que ela tinha para lhe dar, mas desejava outra coisa, provavelmente os momentos de paixo 
sensual que desfrutavam deitados desnudos no leito de um hotel distante do lar de ambos.
    - O que faremos agora? - perguntou Maura. 
    - Vamos embora daqui.
    -  um pouco tarde para ir a algum lugar, no acha? Ou pretende voltar para a cidade? No estamos longe, suponho.
    - Minha querida, no temos escolha: permanecemos aqui, ao lado desses homens mortos, ou seguimos viagem a cavalo.
    - A cavalo? - perguntou Maura surpresa.
    - Sim. Eu trouxe trs animais. Um deles  para voc, trata-se de uma gua mansa.
    - Mesmo que esta gua seja um anjo, no sei se conseguirei cavalgar, principalmente  noite - reclamou Maura confusa. - Por que no podemos voltar para a cidade 
e esperar amanhecer para prosseguirmos'?
    - O xerife avisou que soltaria os outros bandidos, e voltar para o vilarejo seria arriscado demais. Desculpe-me, mas no h outra opo.
    Maura abaixou o olhar e deu um passo para o lado, sem saber o que dizer. Afinal, ergueu o olhar e de novo deparou-se com a viso terrvel dos cadveres ensangentados 
dos bandidos. Virando a cabea para no ser obrigada a ver tal cena, ela respirou fundo e aceitou que no havia outra deciso a tomar.
    - Seguiremos viagem ento.
    - Eu no insistiria em faz-lo se houvesse alternativa- disse Mitchell em tom de quem encerrava o assunto. - Espere um momento enquanto vou buscar os cavalos. 
Tambm trarei roupas mais quentes para voc, pois necessitar de bons agasalhos para enfrentar o frio l fora.
    No instante seguinte, Mitchell saa pela porta e sumia na escurido. Maura ficou sem ao por um momento, mas resolveu que precisava fazer algo, pois a vida 
continuava e era preciso prosseguir. Num mpeto, apanhou alguns dos cobertores imundos cados ao lado da cama e usou-os para cobrir os corpos dos homens mortos.
    Mitchell afinal retornou, e entregou a ela um vestido e uma combinao de l grossa, alm de um comprido cachecol de flanela cinza. Maura puxou uma cadeira para 
o canto mais afastado possvel daquela cena de morte e colocou as novas vestimentas sobre o espaldar de madeira. Era verdade que necessitava de roupas que a defendessem 
do frio, mas vestimentas to grossas e sem graa a fariam parecer um monstro!
    Sem olhar para Mitchell, ela despiu o vestido e as roupas ntimas sensuais que ainda trajava, tentando trocar de roupa depressa e ignorar o fato de que ele seguramente 
a fitava. Envergonhada, o que no sabia era que Mitchell teve de lutar contra o desejo de se aproximar e torn-la nos braos para fazerem amor ali mesmo, apesar 
do absurdo da situao. Maura no levou mais que poucos segundos para se cobrir outra vez; Mitchell ento se aproximou e a conduziu para fora e para longe daquele 
lugar miservel que cheirava a violncia e morte. Os cavalos esperavam logo adiante, e ele indicou a montaria que ela devia usar, ajudando-a a montar e entregando-lhe 
as rdeas.
    - O que acontecer com aqueles homens? - perguntou ela quando j trotavam devagar pela trilha que os afastava do Barraco dos Carneiros.
    - Avisei o xerife que teria corpos para coletar amanh - explicou Mitchell -, mas suponho que ele no vai se dar ao trabalho de faz-lo.
    Maura sentiu um arrepio ao pensar que aqueles cadveres permaneceriam ali em vez de serem enterrados, mas concluiu que se os bandidos tivessem vencido, ela e 
Mitchell  que iriam apodrecer naquele barraco, sabe-se l quanto tempo. Tantas vezes ouvira falar da crueldade do Oeste selvagem e das coisas que se passavam em 
lugares nos quais a vida humana no parecia ter valor, mas no era fcil confrontar-se com isso. O Oeste era selvagem, mas ela se sentia impotente para transformar 
as circunstncias a seu redor.
    - Para onde vamos? - perguntou, tentando desviar o rumo dos pensamentos. - Outro vilarejo?
    - No. Seguiremos at uma cabana prxima das montanhas.
    - Esta cabana pertence a quem?
    - A minha famlia. Temos cabanas espalhadas no trajeto de Paradise at o Mississipi, pois meu pai jamais confiou nas carruagens de transporte e nos trens que 
chegaram mais tarde.
    -  muito longe? - indagou Maura, com medo de ouvir a resposta.
    - No chegaremos antes do amanhecer, mas poderemos descansar um dia ou dois antes de prosseguir.
    - E qual a distncia da cabana at Paradise?
    - Uma semana, a cavalo.
    - Ento ainda chegaremos antes do Natal - observou Maura com uma satisfao que no bastava para dissipar o desnimo que a dominava no momento. - Espero que 
Deidre j esteja l, pois estou preocupada com ela, e seria estranho passar o Natal distante de minha prima.
    - Sua prima estar em Paradise - disse Mitchell esforandose para sorrir. - Veja como est cavalgando bem, apesar de sempre dizer que sua prima  quem sabe cavalgar. 
Comeo a desconfiar que voc no deixa nada a dever a Deidre, apesar de insistir que ela tem mais experincia de vida.
    - O que me amedronta  pensar que Deidre no pode contar com algum como voc para salv-la do perigo, caso necessrio.
    - Pobre Deidre - comentou Mitchell, agora rindo. Contudo, imediatamente ele parou de rir e retomou o tom srio. - Algo me diz que Deidre e Tyrone se encontraram. 
No me pergunte como posso sab-lo, mas trata-se de intuio. No se preocupe, sua prima estar l para se reunir a voc.
    - Espero que sim. - Maura fitou a trilha iluminada pela luz prateada da lua, que fazia a noite parecer ainda mais fria. - Vencer os Martin no ser suficiente 
para me fazer feliz se algo ruim acontecer a Deidre.
    
    
    Captulo IX
    
    - Estou mais dura que um bloco de gelo! - disse Maura quando enfim adentraram a pequena cabana de madeira. O dia acabava de nascer, revelando um cu cinza e 
com nuvens.
    - Vou acender o fogo - avisou Mitchell.
    Ele coletou um pouco da madeira empilhada ao lado da pia e franziu a sobrancelha ao arrum-la dentro da lareira, pois as cinzas pareciam recentes. Na verdade, 
a cabana estava mais limpa do que a encontrara em outras vezes, apesar de no haver sinais bvios de que fora ocupada h pouco tempo. Tomara que fosse uma indicao 
de que Tyrone estivera ali, pois significaria que tudo corria bem com seu irmo.
    - Exatamente o que eu queria! - exclamou Maura, aproximando-se do fogo que comeava a crepitar. - Calor... e dormir uns trs dias!
    Mitchell sorriu, tomou sua mo e a fez se sentar no tapete de pele de carneiro diante da lareira, sentando-se a seu lado. Tambm ele necessitava esquentar seu 
corpo, e assim se deixaram ficar um bom tempo, esperando o ambiente aquecer. Afinal, quando a mistura de calor e cansao os fez bocejar, Mitchell decidiu que era 
hora de comerem alguma coisa antes de se lanarem a um merecido descanso.
    - Tire o casaco e o cachecol - disse ele, levantando-se e tomando a mo de Maura para ajud-la a se erguer. - Vou preparar uma refeio com feijo e bacon, que 
 tudo o que temos.
    - Melhor tirarmos uma soneca agora e deixar para dormir de verdade quando escurecer, seno acabaremos trocando o dia pela noite.
    Mitchell nada disse enquanto preparava a comida, e em poucos instantes um aroma gostoso invadia o interior da cabana.
    - Ainda que seja s feijo e bacon, o aroma est uma delcia - exclamou Maura com gua na boca. - E o caf tambm est cheirando bem.
    Mitchell sorriu e serviu dois pratos sobre a mesa, acompanhados de caf fresco e de fatias de po caseiro que comprara de uma simptica senhora no vilarejo. 
Maura nem agradeceu antes de sentar e comear a comer, pois estava faminta. Ele comia calado, fazendo ela pensar que estava quieto demais, e at um pouco plido. 
Ser que o golpe na cabea que o deixara desacordado trazia conseqncias agora? Na verdade, ele no tem uma feio muito disposta, notou Maura, fitando-o com mais 
ateno.
    Ela recolheu os pratos e os lavou na pequenina pia. Mitchell estendia os cobertores sobre o leito quando, de repente, teve um forte acesso de tosse, que levou 
Maura a parar o que fazia e correr para ele.
    - Voc est doente - constatou ela, fazendo-o sentar na cama. Colocou a mo sobre sua testa para sentir a temperatura. - E tem febre!
    - Pensei que fosse somente cansao, pois nunca fico doente.
    - Mas creio que tambm nunca foi atacado a tiros, nem levou uma pancada na cabea que o deixou sem sentidos.
    - Por que uma pancada na cabea me deixaria doente?
    Maura meneou a cabea e comeou a tirar-lhe a roupa, para que ele se deitasse o mais rpido possvel. A atitude obediente e passiva de Mitchell confirmava o 
diagnstico. Pelo visto, teriam de permanecer na cabana at ele se fortalecer, e no seria fcil convenc-lo a repousar e recuperar a energia antes de tornar a enfrentar 
o frio l fora.
    - Voc foi violentamente atacado. Isso enfraquece qualquer um, e pode acarretar gripe ou febre.  simples.
    - Com os diabos - reclamou Mitchell. - Vamos ter de perder alguns dias aqui, no ?
    - S seguiremos viagem quando voc melhorar e se sentir mais forte. No esquea que estamos no meio do inverno, e enfrentar o frio num estado de fraqueza pode 
piorar uma gripe ou mesmo causar pneumonia - avisou Maura em tom imperativo. - Sei que voc vai reclamar e discordar, mas... agora deite-se.
    - Algumas horas deitado e estarei bem - assegurou Mitchell, recostando a cabea no travesseiro.
    - Nada disso! Precisa de mais tempo para se fortalecer, e vou amarr-lo na cama se for preciso,
    - No deixa de ser uma boa idia...
    Maura, por alguns instantes, considerou que coisas interessantes podiam ser feitas com um amante amarrado na cama. Tal pensamento escandaloso, a fez corar e 
ela preferiu nada comentar.
    O que mais poderia fazer para ajud-lo a se recuperar? Mitchell providenciara uma boa quantidade de comida, e ela descobriu mel e limo entre os mantimentos 
que trouxera. Que sorte! Poderia preparar um excelente xarope, que o ajudaria a lutar contra a tosse e os males da garganta. De resto, bastava que ele descansasse 
para que o corpo pudesse reagir contra a doena.
    Sem pensar duas vezes. ela espremeu vrios limes. Depois, esquentou um pouco de mel, para torn-lo mais fino e mistur-lo bem com o limo. E pensar que Mitchell 
tivesse trazido tais coisas, parecia estranho.
    - Por que resolveu trazer limes? - no conseguiu deixar de perguntar quando a rica e forte mistura estava quase pronta.
    - Temia que voc adoecesse, minha querida - respondeu Mitchell enquanto tentava aliviar a dor de cabea com massagens circulares nas tmporas.
    - Sou mais forte do que pareo - afirmou Maura, sentando-se a seu lado com uma xcara com mel morno e limo. - Tambm tenho um p contra dor de cabea, caso 
voc queira - ofereceu enquanto Mitchell aceitava a xcara e sorvia o primeiro gole.
    - Minha cabea est mesmo doendo, e espero que seja por causa do golpe que levei - completou, tomando outro gole de mel com limo. - Esta poo mgica est me 
fazendo bem! Mas  pssimo que eu me sinta mal, queria tanto chegar em Paradise antes do Natal.
    - Essas indisposies podem ser fortes num dia, e passar rapidamente no outro. Portanto,  hora de descansar, e com um pouco de sorte ainda passaremos o Natal 
em Paradise.
    Mitchell meneou a cabea e terminou de tomar o xarope, devolvendo a xcara vazia para Maura.
    - Sabe que sou impaciente, peo desculpas de antemo se parecer ranzinza demais - disse ele, tentando esboar um sorriso.
    - No chegaria aos ps de minha prima Deidre! Quando tem uma indisposio, ela comea dizendo que est muito ruim, e momentos depois anuncia que far o testamento. 
Mas, esquece tudo assim que d mostras de melhorar, e quer retomar a vida normal como se j estivesse totalmente recuperada.
    - No creio que esta indisposio v me matar - comentou Mitchell, demonstrando sonolncia. - Ao menos garanto que no serei to dramtico quanto sua prima.
    
    Maura lembrou-se daquelas palavras trs dias mais tarde, quando a febre de Mitchell finalmente amainou e ele comeou a dar mostras efetivas de melhorar. A primeira 
noite havia sido a pior de todas, e ele no tardou a dizer que achava que ia morrer e que era ruim no haver um padre por perto para lhe dar a extrema-uno. Maura 
preferiu nada comentar, e seguiu alimentando-o com comida forte e obrigando-o a tomar limo com mel, ainda que reclamasse. Agora, enfim, ele voltava a se recuperar 
e sua face retomava a cor. Em breve estar brigando para partirmos, pensou ela, sabendo que um homem to forte e vigoroso no se deixaria abater muito tempo. Contudo, 
no permitiria que partissem enquanto no estivesse certa de que ele podia seguir viagem sem correr risco de ter uma recada, mesmo que tambm ela desejassee chegar 
a Paradise para o Natal.
    Sentada em frente  lareira, Maura enxugava e escovava os cabelos depois de tomar um banho quente na tina de madeira. Ela se sentia fatigada, pois dormira as 
duas ltimas noites sobre cobertores que estendera no cho perto da lareira, porque Mitchell se mexia demais em virtude da febre e a impedia de adormecer. Talvez 
esta noite possa voltar a dormir na cama, pensou, fitando o fogo, quando ouviu um rudo s suas costas. Ele havia levantado, e comeava a vestir as calas.
    - Aonde pensa que vai, sr. Callaham? - perguntou ela sobressaltada.
    - Ao banheiro l fora - avisou Mitchell em tom imperativo.
    - Pode usar o balde, como tem feito, e sairei um momento para no deix-lo constrangido.
    - Chega disso! J est na hora de recuperar um pouco de dignidade - completou ele, caminhando para pegar as botas.
    - Se cair l fora, ter de se arrastar de volta.
    - No se preocupe.
    - Mais fcil falar do que fazer - murmurou Maura quando ele saiu pela porta dos fundos.
    Ela no conseguiu esperar at Mitchell retornar e correu a vestir o casaco e sair para esper-lo do lado de fora, entre a cabana e o banheiro. Por fim, Mitchell 
apareceu e a fitou.
    - No acreditou que eu fosse conseguir?
    Ele j caminhava com passos vigorosos, por isso Maura deixou que prosseguisse at entrarem na cabana aquecida. Mitchell descalou as botas e tornou a se deitar, 
mas impediu Maura de ajud-lo a se cobrir com os cobertores quando ela se aproximou.
    - Est vendo que fui capaz de ir ao banheiro sozinho?
    - E o que  que isso prova? - perguntou Maura, colocando as mos na cintura e se mantendo em p defronte da cama.
    - Prova que sei o que fao.
    -  mesmo? Pensei que provava o quanto  teimoso.
    - Isso tambm - replicou Mitchell com um sorriso, e se ajeitou embaixo dos cobertores.
    - Sair no frio pode fazer a febre voltar - avisou Maura, e ele a fitou com olhar srio e grave.
    - No podemos ficar aqui por muito mais tempo. Insisti em sair para saber se conseguiria me manter sobre as prprias pernas. Agora sei que ainda estou fraco, 
mas sou capaz de me manter sozinho. Amanh estarei ainda melhor, depois de mais uma noite de descanso, e no creio que tenhamos de esperar uma semana inteira antes 
de prosseguir.
    - Est to gelado l fora - comentou Maura consternada.
    - Falta pouco para chegarmos a Paradise. Voc se importaria em preparar mais daquele xarope?
    - Claro que no. Mas a bebida ficar mais fraca, pois o limo est quase acabando.
    Mitchell a observou enquanto Maura se afastava para outra vez preparar a poo de que ele necessitava. Cuidara dele com carinho e ateno todo o tempo. Algo 
lhe dizia que tambm ela nutria sentimentos que iam alm de mero companheirismo e da oportunidade de dividir bons momentos com um amante. A verdade  que no tinha 
coragem de perguntar o que ela sentia por ele, e qual a profundidade de seus sentimentos. Entretanto, teria de reunir coragem para faz-lo quando chegassem a Paradise, 
caso Maura insistisse em voltar para Saint Louis e cuidar da fazenda.
    
    Maura parou de escovar os cabelos e cerrou os olhos. Mitchell sara para checar os cavalos, mas em breve voltaria. Trs dias aps a febre ter passado, ele havia 
melhorado bastante, e prosseguiriam viagem bem cedo na manh do dia seguinte. Como no sabia onde pernoitariam na prxima noite, e provavelmente estaria morta de 
cansao aps cavalgar o dia inteiro, ela avaliava que no teriam muitas possibilidades de fazerem amor antes de chegar a Paradise. Esta noite era a chance que tinham 
de faz-lo at tombarem de exausto. E algo lhe dizia que Mitchell pensava a mesma coisa.
    Meu lado libertino est aflorando outra vez, pensou Maura com um sorriso, certificando-se de que o roupo estava bem fechado e nada revelava das roupas ntimas 
que escolhera vestir. O corpete roxo-escuro era adornado com laos de cetim negro e se ajustava com perfeio ao seu corpo. Agora era esperar para ver a reao de 
Mitchell quando ela tirasse o roupo.
    Ela preparou o jantar, que infelizmente consistia na mesma combinao de feijo, bacon e po, que agora j no estava fresco. Era pena que no pudesse preparar 
algo mais estimulante para os sentidos, mas no havia outra coisa a fazer. Afinal Mitchell voltou, e ela o recebeu com um sorriso.
    - Os cavalos esto bem, no  mesmo? - perguntou enquanto ele tirava o casaco.
    - Sim. Esto descansados, e poderemos avanar rpido amanh - informou Mitchell, sentando-se para comer. - Vejo que trocou de roupa - acrescentou quando Maura 
tambm sentou, tentando adivinhar o que ela vestia por baixo do roupo.
    - Tomei um banho rpido enquanto voc cuidava dos animais, e no vi razo para tornar a colocar o vestido.
    Mitchell notou que ela parecia vibrarde energia. Satisfeito, considerou que tal energia viria a calhar quando fossem para a cama. No se amavam desde que haviam 
chegado  cabana, mas agora ele se sentia recuperado e tambm cheio de energia. Na verdade, queria t-la puxado para si quando acordaram naquela manh, mas Maura 
levantou rapidamente e ele perdeu a chance. Considerando que o resto da viagem para Paradise poderia ser rdua, esta noite seria talvez a ltima oportunidade para 
saciar o desejo antes de chegarem em casa.
    Quando terminaram de comer, Maura foi lavar os pratos, enquanto Mitchell bebia o caf. Ao observ-la lavando a loua, notou que ela usava meias roxas e se admirou 
que fabricassem meias de tal cor. A cor no era escandalosa, mas sim elegante e sensual, e ficou curioso para descobrir o que mais ela escondia sob o roupo.
    Maura logo terminou com os pratos e voltou para passar um pano mido na mesa, inclinando-se diante de Mitchell e fazendo seu desejo aumentar. O sorriso com que 
o brindou era francamente sensual, e ele franziu a sobrancelha.
    - Est tentando me seduzir?
    Ela se ergueu, atirou o pano na direo da pia e colocou as mos na cintura.
    - Eu? - perguntou com ar inocente, mas dando a entender que fazia cena. - Est imaginando coisas, sr. Callaham.
    -No estou certo disso, querida -replicou Mitchell sorrindo. - No devia brincar com um homem  beira do desespero.
    - Desespero?
    - J faz tempo que...
    - Sim, tempo demais.
    Maura notou que ele fitava seu roupo como se tentasse adivinhar o que ela usava por baixo, e ela tocou os botes na altura do seio, num gesto malicioso. Ser 
que devia esperar at ele terminar o caf?
    - Est me olhando de uma maneira estranha...
    - Estava pensando na maneira como reagiu s minhas roupas de baixo em outras ocasies. Pelo que lembro, parece que gostou.
    - Adorei.
    -Mas algumas delas o deixaram um pouco... surpreso. Talvez seja melhor voc depositar a xcara sobre a mesa.
    - O que est usando hoje  melhor do que aquele espartilho azul-escuro?
    - Voc gostou do espartilho?
    - No lembra que nem lhe dei tempo de chegarmos  cama? Era to transparente que parecia que voc estava nua.
    - O que estou usando hoje no - to transparente.
    Mitchell quase engasgou quando ela tirou o roupo e o jogou sobre a mesa. Maura no usava uma chemise desta vez, e o espartilho era de fato mais grosso e no-transparente, 
mas lhe moldava o corpo de maneira sensual e convidativa. Todo trabalhado com cetim, o espartilho ressaltava ainda mais o que cobria, e Mitchell ficou boquiaberto. 
Suas meias no eram compridas e terminavam logo acima dos joelhos, amarradas por tiras negras que contrastavam com a brancura das coxas de Maura.
    - Acho que minha febre est voltando - disse ele afinal, depois de contempl-la de alto a baixo.
    - Ento  melhor eu tornar a vestir o roupo... - Maura fingia uma preocupao que o sorriso nos lbios mostrava no existir.
    - Melhor continuar como est - avisou Mitchell, levantando e desabotoando a camisa. - Mas gostaria de pedir para tirar a pea que cobre seu corpo logo acima 
das coxas.
    Maura sabia o que Mitchell tinha em mente e qual parte de seu corpo ele desejava ver, pois o espartilho terminava logo abaixo do umbigo. Atender a tal pedido 
a deixaria nua no cerne de sua feminilidade. E que mal haveria nisso? Ele tirara a camisa, e agora se inclinava para despir as botas e as meias. Quando afinal tornou 
a se virar para ela, Maura resolveu que chegara o momento de atend-lo. Devagar e sensualmente, retirou a pea, como ele havia pedido. Finalmente, usando s espartilho, 
meias e ligas, ela o fitou.
    - Por Deus - murmurou ele, aproximando-se e se ajoelhando aos ps dela.
    Mitchell comeou a beij-la nas coxas e enlaou-a por trs, puxando-a de encontro a seus lbios. Louca de desejo, Maura se entregou completamente ao beijo ntimo 
que Mitchell lhe dava, cerrando os olhos e deixando-se queimar no fogo que percorria seu corpo desde o ventre at a face, esquentando-a de uma maneira que toldava 
sua conscincia. Por fim Mitchell a liberou, e a trouxe para deitar sobre o tapete diante da lareira. Ento, deitou a seu lado. Sem pensar, Maura ergueu o tronco 
e passou a beijar o corpo do amante at passar a retribuir o mesmo tipo de beijo ntimo com o qual ele a presenteara.
    Os murmrios de Mitchell deixavam claro o quanto ele apreciava tal carcia, at que, sem mais poder se conter, ele a tirou de cima de si e se deitou sobre ela. 
E seus corpos outra vez se tornaram um s corpo. Poucos minutos se passaram at ambos atingirem o xtase total nos braos um do outro. Consumado o amor, deixaram-se 
ficar abraados sobre o tapete, iluminados pelo fogo suave que crepitava na lareira e acariciava seus corpos com luz e calor. Maura se sentia afagada pela pele do 
amante, e com o desejo sexual saciado, sua mente entrava agora num estado de torpor no qual ela no dormia, mas tambm no estava de todo desperta. Com um sorriso 
nos lbios, ela se perdeu na languidez daquele momento, e a ltima idia coerente que lhe cruzou a cabea foi a constatao de que seu lado libertino era parte de 
sua personalidade. Na verdade, ainda que a modstia e certas regras morais no aprovassem tal tendncia, os frutos que trazia eram bons e saudveis demais para serem 
colocados de lado.
    
    
    Captulo X
    
    - Os trs... o qu? - perguntou Maura, fitando o grande rancho no topo de uma colina, que parecia ainda maior por estar rodeado pela neve.
    - Fazenda dos Trs Anjos - repetiu Mitchell. - Jason escolheu este nome em homenagem s tias que o criaram e ajudaram a desenvolver a fazenda. Ainda moram com 
ele e se chamam Cora, Flora e Dora Brooker.
    - Clora. Flora e Dora. Que nomes divertidos! So trigmeas?
    - No, mas  medida que o tempo passa se parecem cada vez mais uma com a outra.
    - Alto l! - gritou um vaqueiro, em p ao lado da grande porteira da fazenda de Jason Brooker. Mitchell e Maura pararam os cavalos. - Que querem?
    - Meu nome  Mitchell Callaham, e viemos visitar meu amigo Jason.
    - Outro Callaham? - disse o vaqueiro, lembrando-se da visita de Tyrone Callaham e Deidre poucos dias atrs. - Esto sendo perseguidos por pistoleiros?
    - Espero que no - respondeu Mitchell, estranhando a pergunta.
    - Podem seguir para a casa, ento. Melhor sarem do frio o quanto antes - instruiu o vaqueiro, abaixando o rifle e abrindo a porteira.
    Com um gesto de agradecimento, Mitchell soltou as rdeas e o cavalo recomeou a trotar devagar, seguido por Maura. Os animais tinham dificuldade para avanar 
pela neve, mas logo venceram a colina e se aproximaram do rancho.
    Mitchell desmontou, e ajudava Maura a desmontar quando Jason apareceu para receb-los. Ela tentou no fitar o amigo de Mitchell, mas era difcil. Apesar de alto 
e forte, Mitchell ainda era menor que Jason, e era difcil no se impressionar com seu porte to vigoroso: alto, pernas e braos longos, cabelos loiros que chegavam 
aos ombros e os olhos de um azul to claro que mesmo a distncia se percebia. Imediatamente Maura pensou que Jason Brooker era como um descendente de vikings, um 
atraente descendente de vikings.
    - Meu amigo! - exclamou Jason, com uma voz grave que correspondia ao vigor de seu corpo, abraando Mitchell e dandolhe tapas nas costas. - Que prazer v-lo! 
Como tem coragem de viajar neste frio?
    - No tive escolha - explicou ele antes de se virar para Maura, em p a seu lado. - Quero apresentar-lhe Maura Kenney, de Saint Louis.
    - Encantado - disse Jason, dando um galante beijo de boasvindas na mo de Maura. - Suponho que a senhorita no veja a hora de tomar um banho quente, desfrutar 
de um bom jantar e descansar numa cama macia.
    - Seria perfeito - aprovou Maura, sorrindo, impressionada com o cavalheirismo de Jason.
    Mitchell se aproximou e a tomou pelo brao, conduzindo-a pela escada que dava acesso  varanda, e em instantes j entravam no interior da enorme casa-grande. 
Porm, ele no soltou seu brao, numa atitude possessiva, nem escondeu o incmodo que sentia pela maneira galante como Jason a recebera. Confusa, Maura refletiu 
que o comportamento de Mitchell indicava cime, mas qualquer homem se comportaria assim em relao  mulher com a qual compartilhava prazeres sensuais. Jason acabou 
conduzindo-a para um aposento no final de um longo corredor, distante dos outros quartos. Claramente, ele pretendia que Mitchell observasse as regras da decncia 
enquanto estivessem hospedados em sua casa. E, por mais que Maura desejasse compartilhar um leito macio com o amante, era melhor mesmo que se acostumasse a dormir 
sozinha outra vez, pois em breve chegariam a Paradise e esta fase de sua vida terminaria.
    
    -  ela a escolhida? - perguntou Jason sorrindo ao voltar para a sala de visitas a fim de tomar um drinque com Mitchell.
    - Prefiro no falar disso em tom de brincadeira - observou ele, srio. Aceitou o conhaque que Jason lhe servia antes de sentarem em duas confortveis poltronas.
    - No me leve a mal, amigo - pediu Jason, tomando um gole da bebida. - Tenho um jeito brincalho, mas sei que assuntos srios no devem ser tratados com cinismo. 
Ao contrrio de seu irmo Tyrone, sempre acreditei que no  difcil reconhecer quando se encontra a mulher que queremos ter ao nosso lado para sempre.
    - Acredita em amor  primeira vista?
    - Sim e no - replicou Jason, sorrindo, ao ver que Mitchell no apreciava a maneira evasiva como respondera  pergunta. - Amor  primeira vista parece tolo romantismo 
feminino, mas sei de casais que se conheceram e pouco depois casaram e iniciaram uma vida feliz por muitos anos. Por outro lado, conheo outros que obedeceram s 
regras sociais, namoraram durante um longo tempo e ficaram noivos muitos meses antes de casar, para depois descobrirem que haviam feito a escolha errada, s que 
j era tarde demais, e estavam aprisionados num casamento transformado em priso. Acho que a verdade reside em algum ponto entre amor  primeira vista e dar-se tempo 
para conhecer melhor um ao outro. Mas no me pergunte exatamente onde. Talvez apenas alguns entre ns sejam abenoados com o talento de reconhecer onde reside tal 
ponto.
    - Talvez - replicou Mitchell com um leve sorriso, dando a entender que aceitava as explicaes do amigo. - Para responder  sua pergunta, digo-lhe que sim, que 
ela  a mulher a quem escolhi, e acredito que soube disso poucas horas depois de t-la conhecido. U mais interessante  que a primeira coisa que a ouvi dizer foi 
que ia arrancar os pulmes de um pistoleiro pelos olhos! - terminou Mitchell, soltando uma sonora gargalhada.
    - No diga! Mas ela se comporta como uma dama.
    - Maura  uma dama - continuou Mitchell, sorvendo outro gole de conhaque. - Bem-educada, mas sabe se defender. Modesta e decente, mas... - hesitou, e deu de 
ombros antes de terminar. - No importa. O que posso afirmar  que desejo compartilhar minha vida com ela, e agora s preciso de coragem para dizer-lhe o que sinto.
    - Por que no teve ainda coragem de faz-lo, se tem tanta certeza?
    - Maura tem um plano de cultivar as terras que possui com a prima no Missouri. Se eu tivesse certeza de que no conseguiriam, eu a deixaria tentar e a visitaria 
mais tarde, quando o plano houvesse falhado. Algo porm, me diz que elas seriam bem-sucedidas.
    - No me preocuparia com isso - assegurou Jason. - Estou certo que Maura desistiria de ser fazendeira para ficar com voc - acrescentou em tom enigmtico.
    Mitchell franziu a sobrancelha, pensando que havia algo que Jason parecia no querer revelar. Conhecendo o amigo h muitos anos, sabia que ele era inteligente 
e esperto, por vezes at mesmo elusivo e manipulador. Mas, tambm conhecia o amigo o suficiente para saber que quando escondia um segredo, s o revelava quando decidisse 
faz-lo, e no adiantava question-lo a respeito.
    - Acha que estou enganado? - perguntou Mitchell.
    - Acho que voc e as circunstncias podem fazer Maura mudar de idia.
    - Concordo que se eu colocar as cartas na mesa, serei capaz de faz-la desistir de ser fazendeira. No entanto, Maura me d a impresso de controlar certas emoes 
que sente. Alguns comentrios que fez me levam a crer que ela tem marcas de infncia talvez relacionadas com situaes que viveu com o pai e a me. s vezes penso 
que espero que ela me conceda algo que no pode ou no quer conceder a homem algum.
    - Voc quer amor e comprometimento eternos. 
    - No  necessrio ser sarcstico.
    - Sinto muito, por vezes deixo minhas amarguras influenciarem o que digo. Mas estou feliz que tenha encontrado a mulher de seus sonhos, e espero que sejam felizes.
    - Continua sendo sarcstico.
    Jason sorriu, deu de ombros, e seus olhos adquiriram um ar de genuna amizade e honestidade.
    - Sinto muito, meu amigo. Creio que me torno amargurado quando o Natal se aproxima.
    - No se preocupe, desde que prometa que vai aturar minha irritao amanh de manh.
    - No aprecia passar a noite sozinho? - perguntou Jason, agora sorrindo.
    - O que no compreendo  por que voc se tornou to decente! Por que colocou Maura no final do corredor e com os aposentos de suas trs tias entre meu quarto 
e o dela? Reconheo que no seja recomendvel visitar o aposento de uma senhorita solteira, mas pretendo casar com ela.
    - Sei que pretende faz-lo, mas muita coisa pode ocorrer entre agora e a igreja - replicou Jason sorvendo o ltimo gole de conhaque. - De qualquer maneira, no 
quero criar situaes que embaracem minhas tias - completou antes de se virar para trs. - Acho que sua senhorita est chegando.
    De fato, Maura apareceu no salo no momento seguinte. Jason se levantou e puxou uma pequena poltrona para que se juntasse a eles perto da lareira, e em seguida 
perguntou se gostaria de provar um vinho suave. Maura concordou, e sem demora Jason passou-lhe uma taa de cristal. Ela agradeceu. Sorvia o primeiro gole quando 
as tias de Jason surgiram.
    Feitas as apresentaes, todos foram sentar no sof e em poltronas num outro canto do salo. Maura simpatizou imediatamente com as trs senhoras, que exibiam 
genuno prazer por receberem visitas. Vez por outra pareciam trocar olhares, como se escondessem algo que as divertia e fazia darem discretos sorrisos de cumplicidade. 
A conversa seguiu animada, e algum tempo depois vieram anunciar que o jantar estava servido. Todos se dirigiram para a sala de jantar.
    Maura sentiu-se muito bem por trocar o feijo com bacon dos ltimos dias pela comida caseira e pelos saborosos doces servidos na sobremesa. Cora, Flora e Dora 
no se faziam de rogadas e perguntavam tudo que desejavam saber, porm com simpatia e educao. Terminado o jantar, Jason sugeriu que fossem a uma pequena saleta 
ao lado do salo principal para tomarem licor, e todos aceitaram. Entretanto, Maura comeou a se sentir desconfortvel cada vez que as escrituras eram mencionadas, 
pois sempre era obrigada a mentir, deixando de revelar que o que trazia eram cpias falsificadas e no os documentos verdadeiros. Um pouco mais tarde, as tias anunciaram 
que iam se recolher; Maura suspirou aliviada, j que no era nada agradvel mentir para pessoas que a recebiam com tanta generosidade. Mas o pior era ter de mentir 
para o homem que amava, que mais de uma vez arriscara a vida por papis que no possuam valor legal. Pouco depois, ela tambm anunciou que estava cansada, pediu 
licena e se retirou.
    J no quarto, despiu o vestido, colocou a camisola e deitou. Uma cama to macia que no poderei compartilhar com Mitchell, refletiu com um suspiro ao se cobrir 
com os cobertores. Novamente um leito vazio e solitrio. Quanto mais se aproximavam de Paradise, mais Maura tinha de lutar contra o desejo de tentar conquistar o 
amor de Mitchell. Mas, a imagem da me chorando por um homem ausente voltava  sua mente.
    A dor de separar-se de Mitchell seria imensa, mas ela saberia reencontrar a paz algum dia. Afinal, seria pior se entregar a um amor no correspondido, e Mitchell 
jamais proferira a palavra amor. Uma dor que se estendesse dia aps dia seria mais terrvel do que uma perda abrupta e definitiva, e era a esta dor permanente que 
se arriscaria se porventura tentasse conquist-lo.
    
    - Sua senhorita guarda um segredo ou dois - afirmou Jason assim que se viu a ss com Mitchell.
    - Tenho a mesma sensao que voc... Mas no me sinto  vontade para interrog-la a respeito.
    - Compreendo. A mim me parece que ela faz esforo para manter o controle e no deixar transparecer. - O que seria?
    - Difcil dizer.  como se houvesse construdo barreiras para se proteger, mas penso que voc j conseguiu abrir fendas nestas barreiras. Digo isso pela maneira 
como a vejo fit-lo vez por outra, sem defesas, mas logo retomando a postura defendida. - Jason calou e desviou o olhar um momento, mas em seguida tornou a virar-se 
para Mitchell. - No sou muito bom para desvendar os segredos dos outros, sinto muito.
    - Creio que  melhor do que eu, pois bastou conhecer Maura algumas horas para intuir aquilo que levei dias para perceber. A questo  que no sei conversar direito, 
e dou a impresso de ser rude quando na verdade sinto ternura e vontade de me aproximar. No  fcil desvendar os segredos de uma pessoa.
    - No ser fcil, mas tenho certeza que conseguir desvendar os segredos de Maura. Algo me diz que ela quer que voc tente, que tome a iniciativa de se aproximar.
    - Sei que terei de faz-lo, e  melhor que o faa o quanto antes - disse Mitchell, como se falasse para si prprio. - Ainda tem aquele tren?
    - Acabei de emprest-lo para outra pessoa, mas j o devolveram.
    - Posso peg-lo emprestado?
    - Com prazer. Fao questo que alguns de meus homens os acompanhem no ltimo trecho at Paradise. Por favor, no discuta. Seria uma tragdia se o capturassem, 
sobretudo agora que j venceram a maior parte da viagem. De qualquer maneira, vrios empregados da fazenda querem passar o Natal na cidade.
    - O Natal - disse Mitchell pensativo. - Quero tanto passar o Natal com meus irmos... e Maura tambm tem a esperana de pass-lo com a prima. Pergunto-me se 
Deidre e Tyrone se encontraram! Mesmo que no tenham se conhecido, espero que estejam em Paradise para o Natal. No sabe nada a respeito deles?
    - Nada - mentiu Jason. - Mas suponho que no enviar notcias faz parte do plano, no ?
    - Sim, foi o que combinamos. Mas, agora gostaria que Tyrone quebrasse as regras e me deixasse saber se est bem.  duro no saber o que est se passando.
    - Voc e Maura conseguiram completar a viagem com sucesso, e estou seguro de que Tyrone e Deidre tambm conseguiro.
    Mitchell meneou a cabea e nada disse. Ainda que confiasse nas boas previses do amigo, tais palavras no bastavam para confort-lo. Um pouco triste, resolveu 
que era hora de deitar e se despediu de Jason. Entretanto, at adormecer, no conseguiu pensar em outra coisa que no fosse pedir a Deus que boas notcias o esperassem 
quando chegasse a Paradise.
    
    - Vamos viajar de tren!? - perguntou Maura, sem esconder a excitao que sentia. Mitchell recolheu as valises colocadas no cho da varanda e indicou que o acompanhasse 
pela escada rumo ao veculo pronto para partir.
    - Faz anos que no ando de tren, mas adorava faz-lo quando criana - disse ela, j pisando na neve fofa. - No h transporte mais indicado que este para viajar 
na vspera de Natal.
    Mitchell sorriu para o amigo Jason, que os acompanhava para as despedidas, e ambos acomodaram a bagagem no espao que o tren oferecia atrs do banco.
    - No  to quente quanto uma carruagem, mas  a carruagem de Natal que minha rainha merece.
    Maura sorriu com um encanto que a tornava mais linda, e ento se virou para Jason.
    - Obrigada pela hospitalidade e generosidade com que nos recebeu, sr. Brooker, e por nos permitir usar o tren. Tem certeza que no sentir falta dele no feriado 
de Natal?
    - Minhas tias gostavam de passear de tren no dia de Natal, mas esto idosas demais para isso agora. Fico feliz que o possam aproveitar.
    - Tenho certeza que vou adorar!
    - H algo que gostaria de lhe dizer, se no se importa - continuou Jason, notando que Mitchell se distanciara. - Um conselho, embora no tenha sido solicitado.
    - No se preocupe, no se deve rejeitar conselhos de amigos - assegurou Maura, sentindo-se um pouco nervosa pela maneira sria como Jason a fitava.
    - Por vezes as lies que aprendemos de nossos pais no so as melhores que poderiam nos ensinar.
    Maura arregalou os olhos, mas tentou manter a naturalidade.
    - Tais como?
    - Uma criana enxerga as coisas de certa maneira, mas depois cresce e se toma um adulto, que pode reformular as opinies que criou na infncia. Seria tolice 
repetir os mesmos erros cometidos por nossos pais, mas o que importa,  ter conscincia de quais foram tais erros e saber que  possvel tomar as mesmas decises 
que eles tomaram sem que necessariamente acarretem as mesmas conseqncias.
    - Obrigada, senhor. Vou pensar no que me disse.
    - Espero que sim. Mitchell  um amigo de muitos anos, e fico triste quando vejo meus amigos sofrendo sem necessidade.
    Maura sentiu alvio quando Mitchell tomou a se aproximar, livrando-a daquela conversa desconfortvel. Afinal, Jason Brooker parecia capaz de perscrutar seus 
medos e segredos mais ntimos.
    Mitchell a ajudou a se sentar no tren e a enrolou em tantos cobertores que Maura pensou que poderia ser atirada fora do veculo sem se machucar. Era bom notar 
a preocupao com que ele a tratava. Por fim ela pediu que partissem, pois os homens que os acompanhariam j comeavam a se divertir com a situao.
    Maura estava to enrolada em cobertores que parecia uma mmia, e mesmo assim continuava sentindo frio. Teve pena dos homens que os acompanhavam a cavalo, pois 
certamente enfrentavam um frio ainda maior; mas tinha de considerar que eles mesmos haviam decidido passar o Natal na cidade.
    Ela se lembrou das palavras de Jason, que conseguira a faanha de enxergar seus segredos aps conhec-la por algumas horas. O que ele dissera atingira o ponto 
certo, ela agia baseada em lies que aprendera na infncia. Contudo, no tinha certeza que tais lies estavam erradas. Parte dela se recusava a relembrar as coisas 
que passara quando criana, mas talvez fosse necessrio faz-lo para repensar as concluses que agora guiavam sua vida adulta. De qualquer maneira, seria bom provar 
para si mesma que Jason no tinha razo.
    - Sente frio, querida? -indagou Mitchell sentado a seu lado.
    - de espantar que ainda sinta frio, mesmo enrolada em tantos cobertores, mas estou tremendo.
    - Falta pouco para chegarmos em Paradise e nos aquecermos dentro de casa.
    - Vamos para a sua fazenda?
    - Ainda no. Nos hospedaremos no hotel e em seguida irei encontrar meu irmo Stephen. Creio que teremos de visitar o juiz antes de seguir para a fazenda.
    Maura sentiu uma pontada de remorso ao pensar que os documentos que traziam eram falsificaes sem valor. Em breve teria de revelar a verdade.
    - Acha que teremos notcias de seu irmo Tyrone e minha prima?
    - Espero que sim. Certamente no viemos mais rpido que eles, apesar de termos feito parte da viagem por trem. Tenho a esperana que Tyrone e tambm Deidre j 
tenham chegado.
    - No cr que teriam parado na fazenda de Jason?
    - Pensaria que sim, mas  bvio que no o fizeram. De qualquer maneira, assim que eu levar as escrituras para serem registradas, no haver mais perigo para 
Tyrone ou Deidre e poderemos sair  procura deles caso necessrio.
    Depois de me desprezar e me mandar embora, pensou Maura com tristeza. At agora tivera medo de pensar muito na reao de Mitchell ao saber que no trazia as 
verdadeiras escrituras. Mitchell se sentiria trado e a desprezaria por ter escondido a verdade. E se Deidre e Tyrone ainda no houvessem chegado, seria muito pior. 
Incomodada, Maura se encolheu ainda mais sob os cobertores, sabendo que agora no o fazia por causa do frio.
    
    
    Captulo XI
    
    - Ainda tem as escrituras, no tem?
    O momento que Maura temia enfim chegou. No pensara em outra coisa at alcanarem Paradise, e a tenso e o receio aumentaram enquanto se registravam no hotel, 
subiam a escada e se instalavam no quarto. Gostaria de desfrutar mais uma ou duas noites com Mitchell, mas agora tinha de revelar a verdade, e tudo ia mudar.
    - Tenho os papis, mas h uma coisa que devo contar. - Maura tirou as cpias do bolso secreto sob a saia.
    - Ento os escondia sob a saia? Quem diria!
    - Deidre tambm os mantinha escondidos num bolso secreto - explicou Maura, entregando os papis, e Mitchell a fitou surpreso antes de aceit-los.
    - O que quer dizer com isto?
    Maura ainda considerou a possibilidade de no revelar a verdade. Mitchell dissera que o irmo Stephen era advogado, e mencionara um certo juiz Lennon. Um dos 
dois certamente reconheceria que eram cpias, mas isto lhe daria tempo para fugir e no enfrentar Mitchell. Entretanto, seria uma atitude covarde demais.
    - Deidre e eu elaboramos um plano. Sabamos que os Martin estavam dispostos a matar para conseguir as escrituras, e resolvemos seguir por rotas diferentes, cada 
uma de ns portando um conjunto de documentos. Sabamos tambm que era mais provvel que os Martin seguiriam a mulher que viajasse de trem, e era mesmo melhor que 
me seguissem.
    - Por que era melhor que seguissem voc e no Deidre? - perguntou Mitchell, com um olhar que misturava surpresa e suspeio, desfazendo o brilho de alegria que 
ostentava h pouco.
    Maura respirou fundo.
    - Porque os documentos que trago so cpias falsificadas, no possuem valor legal.
    - O qu! - exclamou Mitchell boquiaberto. - Por que no me contou isso antes?
    - Deidre e eu decidimos que manteramos segredo at o final.
    - Mant-lo escondido de mim?
    - Se os Martin descobrissem...
    - Maldio! Teria sido melhor se tivesse me apunhalado pelas costas! - rugiu Mitchell sem deix-la terminar.
    Arrancando os papis de sua mo, ele deu meia volta e saiu do quarto, batendo a porta com estrondo. Sem saber o que fazer, Maura sentou na cama e fitou as prprias 
mos, sentindo as lgrimas escorrerem pela face. Ela era a responsvel pela reao dele, mas no pensava que fosse ficar to furioso. Era visvel que o havia machucado 
profundamente, pois alm da raiva, seus olhos mostraram uma dor imensa, que ela jamais vira antes. Tudo estava perdido, e o caso de amor que vivera terminava.
    Lutando para se acalmar, levantou-se e resolveu tomar um banho quente. Tinha de recuperar o controle sobre as prprias emoes e adquirir foras para levar a 
vida adiante. Sempre conseguira empurrar as tristezas para recnditos profundos de seu ser; e se estivesse longe de Mitchell, o tempo a ajudaria a faz-lo outra 
vez.
    
    Mitchell parou na rua, sem se importar com o frio e a neve que comeava a cair. Por um momento sentiu vontade de rasgar os papis e atir-los longe, mas talvez 
fosse melhor guard-los como lembrana do quanto se enganara ao pensar que havia encontrado a mulher que desejava ter a seu lado.
    Lutando contra o desejo de ir para o bar e beber at no suportar mais, reconheceu que necessitava encontrar seu irmo Stephen. O pior  que o problema seguia 
sem soluo, pois se Deidre no houvesse chegado, perderiam tanto a fazenda quanto as minas, sem mencionar o risco que a prima de Maura seguiria correndo.
    Mitchell comeou a caminhar para casa, e mesmo o ar frio em seus pulmes no bastava para acalmar a raiva e dor que sentia. Apesar de tudo que passaram juntos, 
Maura preferira mentir e tra-lo! E ainda por cima testemunhara o quanto aquilo o atingia, mesmo que por um breve momento.
    Quando afinal chegou em casa, fitou os papis que ainda trazia na mo. Praguejando, enfiou-os no bolso. Ao bater na porta, tudo que desejava era que Stephen 
tivesse uma garrafa de usque. Ou duas!
    - Mitchell! - exclamou Stephen com felicidade ao abrir a porta e ver o irmo. Porm, seu rosto perdeu q brilho ao perceber a expresso de Mitchell. - O que houve, 
meu irmo?
    - Preciso beber. - Mitchell passou pelo irmo e seguiu direto para a sala de visitas.
    - Voc est bem? - perguntou Stephen correndo atrs dele.
    Sem responder, Mitchell se dirigiu para o mvel onde Stephen guardava as bebidas e serviu uma dose de usque, que tomou praticamente num s gole. Fazendo uma 
careta pelo ardor do lcool descendo para o estmago, retirou os papis do bolso e os entregou ao irmo. Depois, afundou-se numa poltrona.
    - O que  isto? - perguntou Stephen surpreso.
    - Deveriam ser os documentos que os Martin tanto desejam! A razo pela qual fui perseguido e atacado tantas vezes durante as ltimas semanas.
    - No compreendo - comeou Stephen. -  certo que no pode saber, mas Tyrone j chegou e trouxe as escrituras que a senhorita Deidre Kenney portava. J levamos 
os documentos para o juiz Lennon e os registramos no cartrio, obrigando aquele vilo Will Pope a assinar uma confirmao de que os havia recebido e estava tudo 
em ordem.
    - Tyrone est bem? - perguntou Mitchell, esquecendo-se da prpria misria um momento.
    - Sim. A srta. Kenney tambm, e penso que vo se casar!
    Sentindo uma pontada de dor no corao ao pensar nos planos que cultivara, Mitchell levantou e serviu-se de outra dose de usque.
    - Fico feliz em saber - disse, depois de tomar mais da bebida.
    - Como conseguiu estes papis.? - indagou Stephen. - No podem ser verdadeiros.
    - So cpias que no possuem valor legal, e pelas quais a srta. Kenney e eu enfrentamos risco de vida por centenas de quilmetros.
    - Voc chegou com a prima de Deidre?
    - Sim. Ela est no hotel, ou ao menos estava quando a deixei. Stephen calou um instante e resolveu beber uma dose de usque.
    Depois de tomar um gole, tornou a fitar o irmo.
    - Suspeito que esta senhorita o tenha encantado - comeou com cautela. - Quer dar voltas no assunto ou prefere me contar a verdade de uma vez?
    Mitchell fitou o irmo um instante, e ingeriu outro gole de usque. Por fim, respirou fundo e revelou tudo a Stephen: a maneira como Maura mentira e o trara 
sem a menor considerao, apesar dos tantos momentos de prazer que compartilharam, do cuidado que tivera com ele quando adoecera e do fato de ele ter concludo que 
ela era a mulher com a qual desejava compartilhar o futuro. Porm, ao terminar o relato, a expresso de Stephen no revelava solidariedade, mas antes curiosidade 
e admirao. Tomara que no esteja admirando os atos de Maura, pensou Mitchell.
    - Acredita de fato que Maura Kenney  a mulher que gostaria de ter a seu lado?
    - Uma verdadeira companheira jamais me teria trado.
    - Maura o acompanhou todo o tempo, compartilhando o perigo e o desconforto?
    - Sim, mas...
    - Em algum momento ela deu mostras de no desejar prosseguir, ou de pensar que no valia a pena arriscar a vida por uma famlia Callaham que nem conhecia?
    - No, mas...
    - Ento, apesar de t-lo trado, como voc diz, ela partiu de Saint Louis para cumprir o que prometera ao tio, que morreu por assumir um trabalho que interessava 
muito mais a ns. E no  verdade que enfrentou pistoleiros que a poderiam ter matado ou violentado sem revelar que no possua os documentos autnticos?
    - Voc  mesmo um advogado! No entanto, Maura devia ter me contado que trazia cpias sem valor.
    - Talvez devesse, mas talvez tambm considerasse secundrio faz-lo. Afinal, sua tarefa principal era iludir os Martin, no era?
    - No confiou em mim.
    - Mas deu a palavra de honra para a prima de que no contaria para ningum, e manteve a promessa.
    - Eu no sou ningum.
    Confuso, Mitchell tornou a sentar. Considerou o que Stephen dizia. O irmo sentou-se na outra poltrona, dando-lhe tempo para pensar. Por fim, ele refletiu que 
talvez Maura tivesse agido bem.
    - No sei que atitude tomar - disse de repente, abaixando o olhar.
    - Se considerar os fatos de maneira menos emocional, talvez acabe dando menos importncia ao fato de ela no ter revelado que trazia cpias.
    - Dar menos importncia ao fato de que mentiu para mim?
    - No conheo Maura Kenney, mas vejo que cumpriu o prometido e enfrentou o perigo, o gelo e o desconforto a seu lado sem titubear. Para mim, isso demonstra confiana 
e companheirismo inigualveis.
    Mitchell admirava a calma e o raciocnio lgico que tomavam seu irmo um excelente advogado. Tinha de admitir que sua insegurana com relao a Maura o fizera 
se sentir trado, e pela primeira vez considerou que deveria engolir o orgulho e voltar ao hotel para tentar consertar as coisas.
    - Meu irmo, pergunte a si prprio - recomeou Stephen de repente - se acredita que vale a pena desistir de seus sonhos porque ela no lhe revelou a verdade.
    - Como posso saber? Nem sei se Maura me quer da mesma maneira como eu a quero.
    Stephen preferiu mudar de assunto, e passou a contar como afinal haviam vencido os Martin, sabendo que assim acalmaria o irmo. Porm, sentia que ao contrrio 
de Deidre, que demonstrava seus sentimentos, Maura guardava as prprias emoes a sete chaves. Por fim, ele retomou o assunto principal.
    - Talvez Maura seja mais controlada do que Deidre e no tenha facilidade para assumir o que realmente sente.
    Tais palavras foram como uma revelao para Mitchell, fazendo-o pensar nos tantos momentos em que sentira as defesas de Maura e sua dificuldade em ser transparente. 
Pensativo, ele tomou o ltimo gole da bebida e fitou o irmo.
    - Creio que devo voltar ao hotel - disse, levantando-se.
    - Tyrone nos espera na fazenda esta noite para o jantar de Natal. Provavelmente vai anunciar o casamento.
    - Jason nos emprestou o tren. Passarei por aqui para pegar voc e seguirmos juntos.
    -  estranho que Jason no tenha contado que Tyrone havia voltado.
    - Aquele bastardo decerto considerou divertido manter segredo.
    - Boa sorte - desejou Stephen acompanhando o irmo at a porta.
    - Gostaria de poder dizer que no necessito de sorte - replicou Mitchell, tornando a sair para a rua e rumando para o hotel.
    
    Maura estava deitada na cama, fitando o teto. O banho quente no surtira efeito: ela no se sentia melhor nem mais leve. Parecia haver perdido o controle sobre 
as prprias emoes, e os artifcios que utilizava para empurrar sentimentos incmodos para recnditos perdidos da mente no pareciam eficazes agora.
    Mitchell havia lhe feito um mal imenso, pois a fizera apaixonar-se, e agora seu corao estava partido em pedaos. Levaria muito tempo para que sua vida voltasse 
 normalidade, se  que um dia voltaria. Ela amava aquele homem, e agora tinha raiva dele por faz-la se sentir assim. Maura cerrou os olhos e tentou pensar em imagens 
que a acalmassem. Mas no adiantava, pois s via a imagem dele a sua frente.
    As palavras de Jason voltaram  sua mente de repente, e talvez ele tivesse razo. Afinal, Mitchell era um homem sedutor, mas seria injusto no reconhecer que 
ela lutara contra o que sentia e se mantivera a distncia sem jamais revelar o que sentia. Contrafeita, teve de assumir que Mitchell era diferente de seu pai e talvez 
no tivesse sido sbio trat-lo com base nas recordaes que tinha da infncia.
    E quanto a si prpria? Seria realmente como a me? No. Sem dvida, era diferente. Mesmo quando o pai contava histrias das viagens que fizera e a me sorria 
sonhadora, o que ela sentia era vontade de brigar com ele e dizer que devia ter gasto o dinheiro com a famlia e no com prazeres egostas. Tambm jamais choraria 
desolada, como a me fazia ao ouvir as histrias sobre as infidelidades do marido. Ela era diferente da me, e no toleraria que o marido a tratasse assim! Jamais 
permitiria que um homem infiel a tomasse infeliz e a obrigasse a viver na pobreza enquanto gastava dinheiro com outras mulheres. Ela tomaria uma atitude contra um 
marido assim, discutiria com ele e o abandonaria se fosse preciso.
    A nica certeza que restava era que o amor podia destruir um corao e fazer algum sangrar como se houvesse sido apunhalado. O amor toma as pessoas vulnerveis. 
Mesmo sua me talvez houvesse sido uma mulher decidida e forte no princpio, mas o amor a transformara num ser desolado, que s sabia chorar enquanto esperava o 
marido tornar a aparecer. Na verdade, sua me no se preocupava nem com a filha; jamais lhe dera ateno, pois s lhe importava o amor que nutria por um homem ausente.
    Maura abriu os olhos de repente, alarmada com o que acabava de pensar. Sempre amara a me, mas agora percebia que Catherine Kenney havia perdido o interesse 
por tudo na vida que no fosse o homem que controlava seu corao. O mundo de sua me girava em torno da figura do marido ausente, e neste mundo no havia espao 
nem mesmo para ela, para a filha que geraram juntos.
    Exausta por tantas descobertas interiores, Maura sentiu-se sonolenta. Sim, precisava dormir, descansar. Tais concluses a respeito de si prpria no resolviam 
seu problema atual, mas talvez a ajudassem a resolver a situao com Mitchell, caso ainda tornasse a v-lo.
    
    
    Captulo XII
    
    Algum me observa, sentiu Maura, que comeava a despertar. Por Deus, ser que os Martin a haviam descoberto e nem mesmo o fato de estar em Paradise a livrava 
do perigo? Sozinha e vestida s de roupo, ela tentou se acalmar e abriu os olhos devagar.
    Mitchell a fitava sentado numa cadeira ao p da cama; trazia nas mos os papis que haviam gerado todo o problema. Ela fitou aquele rosto to atraente, notando 
que seus olhos no brilhavam calorosos, mas a fitavam como a uma estranha. Como doa v-lo olhando-a assim!
    - So falsificaes muito boas - disse ele, atirando os papis sobre a cama. - Nem mesmo Stephen conseguia dizer se os documentos eram falsos ou no.
    - Foram feitas pelo melhor falsificador que conheo em Saint Louis - explicou Maura, surpresa com o tom calmo em que falava, apesar do n na garganta e da dor 
profunda no corao.
    - Voc conhece pessoas estranhas.
    - Meu tio Patrick e Bill por vezes necessitavam de seus servios.
    - Por que no me contou, Maura?
    - Porque prometi a Deidre que no o faria.
    Mitchell suspirou e inclinou o corpo para a frente antes de continuar.
    - Mas por que escond-lo justamente de mim? No confiava em mim?
    - A princpio no, no primeiro dia em que nos encontramos, achei conveniente demais que aparecesse para me salvar. Podia ser apenas uma maneira de conquistar 
minha confiana. Afinal, nada garantia que no fosse outra pessoa contratada pelos Martin. Reconheci que no podia estar mentindo quando me mostrou seus papis, 
pois nenhum falsificador se daria ao trabalho de falsificar notas de compras de botas ou coisas do gnero.
    - Compreendo que fosse cuidadosa no princpio, era o melhor a fazer. Mas e depois? Ns nos tornamos amantes, e mesmo assim no confiou em mim?
    - Eu havia prometido a Deidre -repetiu Maura, sentindo-se, de sbito, vulnervel por estar deitada e somente de roupo. Com um gesto brusco, ela encolheu as 
pernas e se recostou contra a cabeceira da cama. - Na verdade, nem eu mesma compreendo por que no contei a verdade para voc em algum momento da viagem, e muitas 
vezes senti uma culpa terrvel por isso.
    - timo.
    - Eu devia iludir os Martin, compreende? Tinha de atrair a ateno deles e induzi-los a pensar que portava os documentos reais. - Maura respirou fundo antes 
de continuar. - Claro que sabia que voc no ia contar a verdade para os Martin, mas e se no concordasse com o plano que elaborei com Deidre e resolvesse se comunicar 
com seu irmo para que ele fosse atrs dela? Eu no podia ter certeza de nada. Os pistoleiros contratados pelos Martin nos seguiam passo a passo, e certamente se 
comunicavam com eles o tempo todo. Deidre e eu combinamos que ningum podia saber que eu portava falsificaes sem valor. Era necessrio para iludir os Martin e 
garantir a segurana dela. Talvez tenha sido teimosia por no lhe contar, mas compreende que tambm pensava em minha prima e nos riscos que ela enfrentava? Havamos 
prometido a meu tio que terminaramos a tarefa momentos antes de ele morrer, e eu no podia fugir dos compromissos que assumi com os dois nicos familiares que me 
restavam.
    Mitchell praguejou em voz baixa e desviou o olhar, pensando que Stephen tinha razo. Maura confiava nele, mas teve de cumprir o que prometera; e no podia ser 
punida por tal lealdade.
    Tornou a fit-la. Aquele corpo adorvel comeava a despertar mais uma vez seu desejo. Maura parecia to frgil e triste que era difcil evitar o impulso de levantar 
e tom-la nos braos, sem mencionar a vontade de tirar-lhe o roupo e outra vez se encantar com aquele corpo que aprendera a conhecer em tantos momentos ntimos.
    Era necessrio resolver a situao para que pudessem seguir adiante, de uma forma ou de outra, pois ele se sentia to triste e perturbado quanto Maura. Admitia 
que ela no o trara de maneira to desleal como pensara antes, nem mesmo chegara a mentir afirmando que tinha as escrituras reais. Ela mantivera o silncio a respeito 
disso, e ele conclura que trazia os documentos reais. Mas se a tivesse questionado ou exigido ver os papis, o que garantia que no acabaria dizendo a verdade?
    Tais perguntas sem resposta pertenciam ao passado, e agora chegava o momento de construir o futuro. Subitamente nervoso, Mitchell pensou que ainda no sabia 
o que o futuro podia trazer. Sim, ele a amava e a queria como esposa, mas continuava sem saber se seus sentimentos eram correspondidos. Ela o aceitara como amante, 
mas seguira falando em retomar a Saint Louis, desenvolver a fazenda e construir uma vida para si.
    - Est bem - disse Mitchell num repente. - Admito que no me traiu da maneira to terrvel como julguei a princpio. Apenas mentiu.
    Maura se sentiu grata ao perceber que ele reconhecia ter ido longe demais, mas no gostou de ouvi-lo afirmar que ela mentira.
    - No menti, Mitchel. No foi necessrio, voc jamais me perguntou nada nem pediu para conferir os documentos. Na verdade, eu morria de medo que o fizesse.
    - Porque acha que no conseguiria me manter na iluso de que trazia as verdadeiras escrituras?
    - Eu seria incapaz de fit-lo frente a frente e no dizer a verdade se me houvesse feito uma pergunta direta. Talvez ainda o tentasse, mas no creio que teria 
coragem de engan-lo. Sabemos que nada disso pode ser provado, foram momentos que passaram e fatos que no aconteceram.
    - Acredito que confiava em mim, Maura. - Pela primeira vez, ele esboou um leve sorriso. - Compreendo seus motivos para agir como agiu, mas esquecer que no 
me revelou a verdade levar algum tempo, sou humano, e voc sabe a dor que isso me causou. De qualquer forma, eu seria um tremendo idiota se no reconhecesse a maneira 
como se colocou na linha de fogo quando quem mais lucraria com tal atitude seramos eu e meus irmos. Eu a admiro por isto.
    - Obrigada, Mitchell. Sinto muito que no tenha contado a voc. E peo desculpas.
    - Desculpas aceitas. Agora, passamos ao prximo item de nossos negcios.
    - Prximo item de nossos negcios?
    - Vamos casar.
    Mitchell se arrependeu imediatamente por ter sido to rude e inepto em sua maneira de falar. Sabia que deveria ter sido mais romntico e pedi-la em casamento 
em meio a beijos e declaraes de amor. Porm, no era possvel voltar atrs agora. O que o incomodava era o medo que tingia os olhos de Maura.
    - No desejo me casar - disse ela, lutando contra a parte de si que desejava se atirar nos braos de Mitchell e dizer sim.
    Ainda que doesse, Mitchell reconheceu que tinha de insistir antes de desistir.
    - No quer casar em geral ou no quer casar comigo?
    - No  por sua causa.
    Ele levantou, caminhou at a janela e fitou a rua l fora. Por um momento, desejou revelar que Deidre havia chegado e provavelmente ia casar com Tyrone, mas 
resistiu ao impulso, pois se Maura resolvesse permanecer em Paradise, teria de faz-lo por causa dele e no por no querer se afastar da nica parente que possua.
    - Compreendo. - Mitchell ainda fitava a rua. - S sirvo para os prazeres do leito. Como um cavalo de raa que alimentam apenas para que possa procriar.
    - Que coisa horrvel para ser dita!
    - O que voc quer que eu diga? - replicou Mitchell, virando-se e tornando a se aproximar. - Voc era virgem! E apesar de seu gosto por roupas ntimas escandalosas, 
sei que  uma dama at a raiz dos cabelos e preza a decncia! O fato de ter se entregue a mim tantas vezes enquanto viajvamos pressupe que o prximo passo lgico 
seja o casamento, no ?
    O prximo item de nossos negcios. O prximo passo lgico. Maura detestava aquelas palavras. e quase odiava Mitchell por diz-las. Ainda no recuperada da intensa 
conversa sobre as escrituras, era difcil lidar com este assunto, e ela se sentia confusa.
    - Talvez eu no seja uma pessoa muito lgica - disse, sentindo como se estivesse a ponto de se despedaar em centenas de pedaos.
    - Case comigo, Maura. Talvez at j esteja carregando nossa criana dentro de si!
    - Ento casaria comigo por causa da criana que eu talvez carregue? - perguntou ela com amarga ironia.
    Mitchell notou que as mos de Maura tremiam e franziu a sobrancelha. Com os diabos, ele estava fazendo tudo errado, propusera casamento como quem d uma ordem! 
Mas o que o movia era o desespero. Necessitava loucamente que Maura aceitasse viver a seu lado. Claro que devia falar em amor, ser romntico e dizer palavras bonitas, 
mas teria tempo para isso mais tarde, e para provar o que sentia. Contudo, Maura reagia com extremo nervosismo, que ele no previra, e apertava as prprias mos 
com tanta fora que parecia machucar a si mesma. Seus lbios tremiam, e ela perdera a cor, tornando-se plida.
    - Claro que me casaria por causa de uma criana gerada por mim. Sou um homem que assume suas responsabilidades!
    - Responsabilidade - murmurou Maura, desviando o olhar e apertando as mos ainda mais fortemente.
    - Podemos fazer um bom casamento, Maura. Gostamos um do outro. Ns nos respeitamos e nos desejamos.
    Maura cobriu o rosto com as mos, sentindo um zumbido na cabea, que parecia a ponto de explodir. Item de negcios, lgica e responsabilidade. Aflita, ela comeou 
a temer pelo que poderia dizer ou fazer dali para a frente.
    - No, no e no - murmurou, ainda com o rosto coberto pelas mos.
    - Por que no?
    - No me casarei com um homem que no me ame! - Maura abriu os olhos, sentindo como se uma represa estourasse dentro de si, liberando uma incontrolvel torrente 
de gua que levava de roldo tudo que encontrava pela frente. - Jamais repetirei o erro de minha me. Jamais! No me tomarei uma pattica criatura esperando por 
migalhas de ateno do marido e tentando desesperadamente ser amada para no sucumbir  prpria dor e infelicidade. Nunca! No passarei noites chorando pela casa, 
sabendo que por mais que faa, jamais terei o amor que necessito para viver.
    De repente, Mitchell compreendeu o que se passava com Maura e por que ela mantinha suas defesas sempre erguidas. Sua alma carregava marcas profundas, provindas 
do que observara na relao dos pais quando criana. Agora tudo se tomava claro, e era horrvel v-la desesperada  sua frente e  merc de emoes que no podia 
controlar e que ditavam seus atos.
    Sem pensar, ele sentou na cama a seu lado e a abraou com fora, ainda que Maura lutasse para se libertar. Finalmente ela comeou a chorar, e Mitchell permitiu 
que as lgrimas h tanto tempo represadas ganhassem o espao que necessitavam para que Maura pudesse se libertar daqueles traumas.
    - Conte-me a respeito de seus pais - pediu ele quando os soluos amainaram, afastando-se um pouco e tocando-a gentilmente no rosto.
    - No  importante. - Maura enxugou as lgrimas, embaraada pela sbita exploso que no conseguira controlar.
    -  muito importante, pois o que ocorreu entre seus pais a faz erguer uma barreira entre ns, uma barreira que necessitamos destruir.
    - Minha me amava meu pai com desespero - revelou Maura hesitante.
    - E ele no a amava?
    - No sei.  sua prpria maneira, talvez amasse. Ele era um jogador e sedutor de mulheres. Creio que no princpio o casamento tenha sido bom, mas logo as coisas 
se transformaram. Meu pai comeou a se ausentar cada vez mais e ao voltar para casa, ficava uma ou duas semanas, deixava-nos um pouco de dinheiro e tornava a desaparecer. 
Minha me passava os dias chorando e fitando o espao vazio pela janela, esperando ele voltar. Esta foi sua vida at meu pai ser flagrado na cama de uma mulher casada 
e ser morto pelo marido. Depois disso, minha me pareceu morrer tambm, nunca mais sorriu, e tudo em sua vida perdeu a importncia. Andava como um zumbi pela casa, 
e acredito que teria morrido de inanio se eu no insistisse para que comesse. Era como se vivesse num outro mundo; no era possvel comunicar-se com ela.
    Mitchell a fitou um instante, ento tomou seu rosto com as mos, ergueu-o e o fitou.
    - Maura, meu amor, no sou seu pai.
    Ele a olhava com tamanha ternura e sinceridade que ela sentiu o corao acelerar, como se uma luz distante comeasse a brilhar.
    - No, no .
    - Tambm no sou jogador, nem seduzo mulheres - continuou Mitchell, beijando-a suavemente na face ainda mida pelas lgrimas. - No direi que levei uma vida 
de santo, mas at agora fui um homem solteiro. E no pense que visitei muitos bordis em minha vida, apesar de por vezes no saber como me livrar do desejo sexual.
    - Jamais tive outra impresso a seu respeito.
    - Voc tambm no  como sua me.
    - No sou,  verdade. Jamais aceitei os atos de meu pai, e detestava ver que minha me se submetia a um amor que a destrua.
    - Ainda h outra diferena a considerar - disse Mitchell, beijando-a mais e mais na face, com extrema suavidade.
    - O qu?
    - Eu te amo, Maura.
    Ela teve um sobressalto ao ouvir tais palavras; julgava que jamais seriam proferidas. Seu corao passou a bater to forte que a fez colocar a mo sobre o peito, 
como para acalm-lo.
    - Voc me ama?
    Mitchell sorriu.
    - Sim. Acho que a amo desde quando a conheci. Sempre acreditei que no necessitaria de muito tempo para reconhecer a mulher de minha vida, minha companheira, 
e nosso primeiro beijo confirmou isso. No digo que imediatamente me conscientizei que era amor o que sentia, mas compreendi que a queria a meu lado. Minha inteno 
era a de me casar com voc, e h muito eu desejava que soubesse disso.
    Maura sorriu como se a alma se libertasse de um enorme peso, e o fitou nos olhos, agora sem necessidade de esconder o que sentia.
    - Oh, Mitchell, o que diz  to romntico...
    - Creio que consigo ser romntico de vez em quando.
    - Sim, consegue - concordou Maura, sentindo que as lgrimas tornavam a correr em sua face, mas agora eram lgrimas de alegria.
    - Voc me ama, Maura? - perguntou Mitchell, com tanta intensidade e aflio que ela parou de chorar. 
    - Sim, Mitchell, eu te amo. Por que acha que fiquei to desesperada? Tudo que desejava era construir uma vida a seu lado, mas voc nunca falou em amor, nem mesmo 
ao propor casamento h pouco. Tudo em mim queria dizer "sim", mas me aterrorizava a idia de amar um homem que no me amasse.
    Os dois se fitaram um momento, calados, e Maura sentiu como se anos e anos de dvidas e falsas certezas houvessem ficado para trs. A frase "eu te amo" tinha 
o incrvel poder de transformar desespero em alegria e esperana.
    - Prometo que jamais se arrepender de casar comigo, Maura!
    Num acordo tcito, ambos comearam a despir um ao outro com gestos que s vezes os atrapalhavam. Instantes depois, j estavam despidos, e Mitchell a abraou 
com fora. Beijaram-se como nunca haviam se beijado at ento. Maura precisava demonstrar com o corpo aquilo que dizia em palavras, e sentia que Mitchell tinha a 
mesma necessidade. Quando enfim se tornaram um s corpo, ambos pararam um momento.
    - Maura Kenney, eu te amo.
    Ela tomou sua face com a mo e o puxou at seus lbios se tocarem.
    - Tambm te amo, Mitchell Callaham, e amarei para sempre - sussurrou.
    Ambos cerraram os olhos e se entregaram ao misto de paixo e amor que os consumia, agora certos de que tinham um ao outro, livres do medo, de incertezas e de 
defesas que tanto tempo os separaram, como muros intransponveis. Atingiram o xtase simultaneamente, perdendo-se um no outro e no mundo ao redor, como se o tempo 
parasse e nada existisse que no o calor de seus corpos e a entrega absoluta.
    - Est feliz, meu amor? - perguntou Mitchell longo tempo depois, quando afinal rolou para o lado sem desfazer o abrao e mantendo-a junto de si.
    - Sim. S falta uma coisa para que minha felicidade se tome completa: gostaria que Deidre estivesse aqui, livre de perigo e sabendo como me sinto feliz.
    - H algo que esqueci de contar - comeou Mitchell com um sorriso enigmtico. - Sua prima est em Paradise e vai se casar com Tyrone.
    Maura arregalou os olhos, boquiaberta. Teria escutado bem?
    - Meu irmo enfim resolveu dar um rumo na vida. Pelo visto, teremos um duplo casamento em breve.
    -  maravilhoso - exclamou Maura, que mal tivera tempo para assimilar tudo que acontecia. - O melhor Natal que j tive na vida, apesar de meu tio no estar presente 
- disse sorrindo, abraando-o com fora e tornando a beij-lo nos lbios. - Obrigada, Mitchell.
    - Por que me agradece? Deidre chegou aqui caminhando com as prprias pernas.
    - Estou agradecendo por me amar, seu tolo.
    - No quero que me agradea por isso. Na verdade, eu  que estou grato por me amar.
    - Ser que vamos ter de brigar a respeito?
    - Creio que sim! Mas penso que brigaremos para sempre, pois nenhum dos dois dar o brao a torcer.
    - "Para sempre"  a melhor expresso que poderia usar - sussurrou Maura, voltando a beij-lo e recebendo-o por inteiro em seus braos.
    
    
    Eplogo
    
    Dia de Natal
    
    - Tyrone, pare de comer os bombons e venha at aqui.
    Sorrindo, Tyrone se aproximou de Deidre, postada  janela onde havia passado a maior parte do tempo quando finalmente conseguiram sair da cama naquela manh. 
Como podia saber que ele roubava outro chocolate se no se virara nenhuma vez?
    - O que foi? - perguntou ele, abraando-a por trs e beijando-lhe a nuca com suavidade.
    - No  o tren do sr. Brooker que est vindo para c?
    - Voc tem tima viso - disse Tyrone ao notar o pequeno veculo se aproximando a distncia. - Parece mesmo ser o tren de Jason. Estranho, pois combinamos que 
o levariam de volta.
    - A nica pessoa que deveria vir era Stephen, no era?
    - Sim, e chegaria mais ou menos neste horrio.
    - Mas h trs pessoas no tren.
    - Tem razo.
    Deidre aproximou tanto o rosto da janela para poder enxergar melhor que o calor de sua respirao embaou o vidro, obrigando-a a usar o pequenino leno de seda 
para limpar. Prendendo a respirao, ela pensou que seu olhar lhe pregava peas fazendo-a ver o que tanto desejava ver, mas num instante no teve dvidas de que 
reconhecia o cabelo ruivo-escuro da mulher sentada entre os dois homens. Maura! Imediatamente Deidre desvencilhou-se do abrao de Tyrone e correu para a porta da 
frente.
    
    - Maura, pare de se erguer do assento - reclamou Mitchell, com receio que ela terminasse caindo do tren.
    - Sinto muito, mas estou ansiosa para encontrar Deidre e confirmar que est s e salva.
    - Garanto que ela est bem - disse Stephen.
    Maura saltou do tren assim que o veculo estacionou diante da porta da casa da fazenda Kate, e neste momento Deidre j saa correndo pela porta. Deidre gritava 
o nome de Maura, e Maura gritava o nome de Deidre; elas no cabiam em si de alegria. No instante seguinte, ambas se encontravam na varanda e se abraavam rindo e 
com enorme afeto. Sem demora puseram-se a contar o que havia passado com cada uma, sem se darem conta de que ambas falavam ao mesmo tempo.
    Quando afinal se acalmaram, as apresentaes foram feitas, e Tyrone sugeriu que entrassem para escapar ao frio. Deidre e a prima continuaram falando at chegarem 
 sala de visitas, e recusaram os drinques que Tyrone serviu. Deidre puxou a prima para a cozinha.
    Em pouco tempo, ambas relataram os acontecimentos principais, e especialmente que haviam se apaixonado por Tyrone e Mitchell Callaham. Mais tarde, um pouco mais 
calmas, cuidaram dos preparativos do jantar que seria servido em breve.
    - Ento voc o ama? - quis saber Deidre, enquanto Maura arrumava as pequeninas cenouras ao redor da enorme salada.
    - Como jamais pensei que amaria um homem - afirmou Maura, com um suspiro que fez Deidre rir.
    - Sempre tive a impresso de que no queria ou no podia se apaixonar - observou Deidre, ajudando a finalizar a decorao da salada.
    - No queria me apaixonar, pois a idia de me tornar um brinquedo para meu marido me horrorizava. Mas cheguei a concluso de que sou diferente de minha me.
    - Poderia ter me contado o que sentia, e eu a teria feito ver que  diferente de sua me.
    - Creio que precisava chegara esta concluso sozinha. E voc, ama Tyrone?
    - Com toda a fora de meu corao, apesar de seus defeitos.
    - Ele tem defeitos?
    - Todos temos defeitos, no ? Mitchell tambm no os tem?
    - Sim, alguns - concordou Maura sorrindo.
    Quando voltaram a se reunir na sala de visitas, Tyrone fez questo de servir outro drinque nas finas taas de cristal, e Deidre tornou a iniciativa de fazer 
o brinde.
    - A Patrick Kenney - props. - Foi o legado que deixou pana a filha e a sobrinha que tanto amava que nos permitiu nos conhecer e estar juntos aqui, agora.
    - A Patrick Kenney - disse Mitchell, erguendo a taa e beijando a face de Maura com suavidade, para enxugar a lgrima que ela no conseguiu reter.
    Em breve as mulheres j corriam de volta para a cozinha, deixando os homens a ss outra vez. Tyrone fitou Stephen com um enorme sorriso e lhe disse:
    - Voc  o prximo.
    - Tem certeza? E por onde devo comear a procurar minha cara-metade? Pelo visto, j conseguiram as duas melhores de todas.
    - Espere para ver como o vero lhe dar a oportunidade de encontrar a mulher de sua vida - opinou Mitchell, piscando para Tyrone enquanto retirava um envelope 
do bolso e o passava para Stephen.
    - Que  isto? - perguntou Stephen surpreso.
    - Um bilhete de trem para Saint Louis!
    
    FIM
    
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